Site icon A Viagem dos Argonautas

UM HOMEM SÉRIO – por Carlos de Matos Gomes

 

A morte que conhecemos coloca-nos a questão de decidir o que dizer deles. Para mim, daqueles que admiro, como é o caso do Monteiro Valente, a decisão é fácil: digo a ideia que tenho deles. Falo da impressão que me deixaram. A imagem que tenho do Augusto Monteiro Valente começou a ser construída em outubro de 1963, quando entrámos para a Academia Militar, na Amadora. A imagem dele surge-me associada à do Diamantino Gertrudes da Silva, a de um camarada mais velho, de alguém que levava a vida a sério, para quem a Academia, os valores militares, a disciplina, o estudo, o presente e o futuro eram assuntos sérios, muito sérios.

O Monteiro Valente não viera para a Academia para viver uma aventura, viera por razões ponderosas de se realizar, de ter um futuro, de desempenhar com responsabilidade o seu papel na instituição militar e de servir o seu país. A seriedade com se dedicava a preparar-se para ser oficial levou os que, como eu, éramos bastante mais superficiais, a tratarem-no por general desde cadete. Adivinhámos, até no modo quase majestático como andava, como movimentava o corpo, como falava, como se fardava, que o seria e ele queria sê-lo. Era um homem de missão, de levar as coisas até ao fim. Um militar que entendia a disciplina e a exigência a começar por si. Um patriota que queria um país fundado em sãos princípios de honestidade, de justiça. Também um homem de cultura, porque é o saber que explica como chegámos ao presente e nos indica o caminho do futuro.

A imagem que tenho do Valente é a de alguém muitoatento a ouvir porque entendia que o outro, o que o outro era, o que o outro sabia, também fazia parte dele e ele fazia parte de um todo que se movia, de um povo, de uma nação, de um mundo de onde ninguém podia sair. A seriedade do Valente, que tornou eticamente imperativa a sua participação no 25 de Abril de 1974, como de tantos dos jovens militares da sua geração, levou-o nos tempos mais recentes a assumir a convicção que lhe cabiam insuportáveis responsabilidades pela degeneração coletiva das suas e das nossas esperanças num país melhor. A sua inteireza de caráter fê-lo culpar-se por males de que não era responsável e sofrer por eles uma dor interior que disfarçava com um sorriso. É desse sorriso triste de alguém que me acolhia em Coimbra e que se vai afastando com o passo grave de um homem em quem podemos confiar, a minha última imagem do Monteiro Valente…

Exit mobile version