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TEMPO DE NATAL, É TEMPO DE CHARLES DICKENS, É HOJE TEMPO DO BANDO DOS 4 QUE GOVERNA A EUROPA, É TEMPO DE SPARTACUS, DE JESUS, E DE OUTROS MAIS DE QUE A HISTÓRIA HÁ-DE VOLTAR A FALAR.

Selecção e adaptação por Júlio Marques Mota

Uma nova versão de Um Postal de Natal de Dickens e depois de  Dan Kervick, economista  progressista que faz parte do blog New Economic Perspectives, disponível em:  http://neweconomicperspectives.org/

Adaptação de um trabalho de  Dan Kervick à nossa Europa, ao nosso país, ao nosso governo constituído  por gente sem vergonha, às nossas gentes que destes são agora as vítimas. Um trabalho sem pretensões, função da época natalícia com o Gaspar a roubar todos os presépios possíveis, mesmo os imaginários,  tal é a sua senha de procurar satisfazer a Troika.  Um diálogo entre duas personagens do livro de Charles Dickens, Scrooge et Cratchit, diálogo imaginado agora, em Portugal.

Júlio Marques Mota

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 (continuação)

Parte II

 

CRATCHIT:

Cabo????    Mas ela trabalhou  tanto na sua vida,  Scrooge!  Porque é que esta política europeia  lhe vai tirar o que ela tinha amealhado nas mãos e nos bancos da Segurança Social? Não eram os seus direitos, e ainda por cima, já pagos?

 SCROOGE:

A culpa é sua,  Cratchit!  Devia ter poupado bem mais, seu perdulário,  devia também ter trabalhado mais,  seu  grande preguiçoso!  Poderia então tratar da sua sogra, da sua mãe, de quem quisesse!  Pensa que o dinheiro se faz  no BCE, no Banco de Portugal ou noutro qualquer banco Central?

 CRATCHIT:

Mas, senhor  Scrooge, o meu salário não aumentou desde há anos – e depois, com esta crise e os impostos a aumentarem, o meu salário real até desceu .  Desceu, senhor Scrooge!  Como é que poderia ter poupado mais?

 SCROOGE:

Levante-se, homem! Deixe de estar preso ao chão.  Ande por si, deixe de andar só a olhar para a ajuda que os outros lhe possam dar.  O que lhe está a acontecer está também a acontecer com toda a gente, não, com quase toda a gente. Quase toda a gente vai ter de sentir este pequeno programa de austeridade para evitar o programa do grande precipício orçamental. Não se esqueça disto. E quase toda a gente com o medo de um programa de austeridade maior vai ficar contente com este, bem mais pequeno na austeridade imposta. Vai ver.

CRATCHIT:

Mas,  senhor  Scrooge, se as pessoas passam a receber menos como salários, se os impostos estão a aumentar, todos eles irão ficar mais pobres. As empresas estão já em muita dificuldade, estão já em perigo de vida,  a debater-se contra esta crise e ainda por cima…mais austeridade. Ora os europeus passarão ainda a comprar menos do que compram agora . Haverá a produção de bens e serviços a baixar, haverá  então ainda mais gente a perder o emprego e se perdem o emprego deixam de ganhar, se deixam de ganhar deixam de poder pagar os impostos e então as receitas deixam de aumentar, como quer o seu programa.  Mas um mal nunca vem só. Mesmo aqueles que mantêm os  seus postos de trabalho não serão capazes de pagar tanto imposto global, mesmo que as suas taxas de imposição fiscal tenham subido. E mesmo se nós paralelamente cortarmos a Segurança Social por pessoa, o aumento de pessoas a depender minimamente da Segurança Social vai fortemente disparar quando as receitas passam então a diminuir , o que  significa que acabamos por gastar mais dinheiro de toda e qualquer maneira e com menos receitas.

Não será antes o contrário, o que se deve fazer nesta grave conjuntura, senhor  Scrooge?  Não será antes o contrário: nós devemos antes  aumentar as despesas públicas  e não devemos aumentar os  impostos agora, devemos até descê-los para as classes sociais em maior dificuldade ou mantê-los como estão, e então reajustar os impostos e as despesas públicas mais tarde, quando toda a Europa estiver a trabalhar, a criar riqueza, quando a Europa deixar cair as amarras que agora a estão a prender. Não será antes assim?

 SCROOGE:

Cratchit, você é mesmo um  contabilista  muito inteligente,  de facto!  É por isso que o contratei. E talvez você esteja certo do ponto de vista das finanças de cada Estado membro da União Europeia e de Bruxelas e Frankfurt, também.  Mas, verdade seja dita, a questão aqui não é realmente o défice orçamental. A verdadeira questão de tudo isto, de todos estes planos de austeridade, é a disciplina, é a ordem, Cratchit – é a disciplina, homem! Não entendes?

CRATCHIT:

O que é quer dizer, senhor Scrooge?

 SCROOGE:

Os povos da Europa estão a sofrer com os planos de austeridade sucessivos da União Europeia, estão a sofrer com os programas de Primavera aprovados, estão a sofrer com os sistemas de Ponzi do FEEF e do MEE, passarão a sofrer ainda mais com o travão da dívida que todos aprovaram nas costas dos seus povos. Esta é a verdade, Cratchit. Estão a sofrer muito, Cratchit, mas aguentam porque estão a levar à prática as leis que aprovaram nos seus Parlamentos nacionais. Ninguém se quer assumir como tendo sido parvo em aprovar os governos em que votaram. Ninguém, percebes? E isto é algo de que podemos tirar vantagem decisiva! Os cidadãos sentem o aperto nas  suas próprias finanças pessoais, como se o comportamento das famílias individualmente seja o mesmo que o dos Estados, como se o plano micro-económico seja exactamente o  mesmo que o plano macroeconómico, como se o todo seja apenas a soma das partes, e não a transformação dessa soma, dessa totalidade. Quando as pessoas entendem que a sociedade é apenas a soma dos indivíduos isoladamente tomados, ah, então percebem que a União Europeia deve ter o mesmo comportamento que as famílias, então aceitam bem esta austeridade. Quem deve, então deve poupar, deve pagar. Pagar, primeiro que tudo. A austeridade é feita em nome deles, não te esqueças.

CRATCHIT:

Não percebo, senhor Scrooge!

SCROOGE:

Simples. Olha, vai ver o Benfica-Porto. Para veres melhor e se tiveres alguém mais alto à tua frente, como é que podes ver  melhor e sem pagar mais?

CRATCHIT.

Simples, pois é. Levanto-me e vejo bem todas as jogadas. E vejo então o Benfica a ganhar!

SCROOGE.

Estamos a ver de veres melhor e não dos resultados. Uma coisa é independente da outra até porque a segunda é aleatória, como se diz nos mercados. Não te confundas. Vês então melhor, não é? Mas se todos fizerem individualmente o mesmo,  como é então? Vês melhor? Não, Passas a ver bem pior e a quase maioria das pessoas fica depois como tu, a maioria deixa de poder ver o jogo decentemente. Como vês, o colectivo, o produto que se obtém quando se somam as partes, não é igual à soma dessas partes em que cada um via melhor se se levantasse. Agora , como resultado da soma das partes em que cada um isoladamente vê melhor, é que, depois, cada um passa a ver bem pior, passa  a deixar de  poder ver o jogo.

A sociedade e os indivíduos isoladamente tomados mesmo que somados é a mesma coisa, são duas coisas então bem diferentes. O que pode ser válido individualmente pode não ser válido colectivamente. Essa é a passagem do plano micro para o plano macro, essa é a lição de Keynes, entre muitas outras que nos deu.

Curiosamente, quando as pessoas aguentam desta forma os nossos planos de austeridade e se contentam com menos e dando-nos  muito mais até em horas de trabalho semanais, supõem, erradamente, que os Governos e as Instituições Europeias, se devem comportar da mesma forma que as famílias isoladamente e prosseguir o mesmo tipo de austeridade que eles, ou seja, uns e outros, indivíduos e sociedades deveriam então fazer a mesma coisa.  Eles não entendem que os Estados membros têm muito mais flexibilidade nos seus orçamentos, e que a austeridade agora imposta na Europa aumenta ainda mais o seu sofrimento que eles tão bem aceitam, por esta visão errada das coisas, como sendo inevitável.  É assim, Cratchit! Nós devemos tirar proveito desta situação para obrigar as pessoas a aceitar um menor nível de serviço do governo!

 CRATCHIT:

Mas, por todos os Santos, senhor  Scrooge!   Porque é que quer que os Estados sirvam menos os seus cidadãos, menos, porquê ?  Não é função de serviço público servir melhor, melhorar o bem-estar das populações, dos povos?

 SCROOGE:

Cratchit, eu dei-lhe este posto de trabalho porque vi logo que você era bom, era inteligente, que sabe pensar!  Não se esqueça disso! E, como para mim… Eu, quando tudo virou com a crise, aproveitei para levar a cabo a minha visão do mundo, a visão de quem nunca fez nada de jeito na vida nem quer fazer. A primeira vez que fui seriamente confrontado com o que não sabia fazer, umas eleições em Portugal que perdi, inventei uma cimeira nos Açores e ganhei o poder aqui… deram-mo, como prémio de bem-servir. E agora acho que quase toda a gente deve purgar a crise que se criou. Liquidemos assim o mal com o mal. Punam-se os países com taxas de juro elevadas. Não é assim a reza dos protestantes do Bundesbank, do seu Directório? Aprendam o que é austeridade…

CRATCHIT:

Oh, Céus, senhor Scrooge! Como isto parece terrivelmente cruel. Porque é que quer fazer isso? Porque é quer   não quer a Comissão Europeia e os governos dos Estados  membros a funcionarem  bem melhor, em sentido contrário ao destes últimos anos, a servir os povos europeus e procurar aumentar o  seu  bem-estar em vez de os estar a destruir com esses planos sucessivos de austeridade. Há já muitos milhões dos nossos cidadãos que estão desempregados.

SCROOGE:

Bah!  Deixá-los permanecer desempregados e diminuía-se o volume da força de trabalho. Absorve-se assim, a médio e longo prazo o desemprego, sem intervenção nossa no sentido que tu queres, e ficamos com a mão-de-obra mais barata! Os mercados como mecanismo de ajustamento. Vês! Eu não quero, nunca mais, nunca mais mesmo, não viver pobre como vivi na minha adolescência em Almada. Não, então também eu tenho de servir, para me servirem bem. Percebes?

CRATCHIT:

Mr. Scrooge, eu tenho cá estado a pensar. Gastamos os nossos dias aqui contando e recontando as moeda de ouro da Europa, ou melhor, os seus equivalentes em papel-moeda, com as informações que nos vêm das capitais dos Estados membros  e somam-se os totais nos nossos livros de contabilidade, no BCE, em  Frankfurt. De onde vem todo esse ouro moeda, esse papel-moeda equivalente ao ouro?

(continua)
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