Selecção e adaptação por Júlio Marques Mota
Uma nova versão de Um Postal de Natal de Dickens e depois de Dan Kervick, economista progressista que faz parte do blog New Economic Perspectives, disponível em: http://neweconomicperspectives.org/
Adaptação de um trabalho de Dan Kervick à nossa Europa, ao nosso país, ao nosso governo constituído por gente sem vergonha, às nossas gentes que destes são agora as vítimas. Um trabalho sem pretensões, função da época natalícia com o Gaspar a roubar todos os presépios possíveis, mesmo os imaginários, tal é a sua senha de procurar satisfazer a Troika. Um diálogo entre duas personagens do livro de Charles Dickens, Scrooge et Cratchit, diálogo imaginado agora, em Portugal.
Júlio Marques Mota
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(CONTINUAÇÃO)
Parte III
SCROOGE:
Sabe muito bem, Cratchit! Dos impostos recebidos! Mas será que não confirma sempre isso? !
CRATCHIT:
Mas quero dizer antes disso, antes de os impostos, senhor Scrooge. Antes de os receber como impostos, de onde é que vêm , em primeiro lugar, esse dinheiro ?
SCROOGE:
Diabos o levem, Cratchit, você é mesmo muito impertinente! Mas uma vez que admiro a sua persistência, vou contar-lhe um segredo que Trichet e depois Mário Draghi me ensinaram. Nós somos uns verdadeiros alquimistas com o nosso BCE e fabricamos o nosso papel-moeda, como equivalente ao ouro pois vivemos uma espécie de padrão-ouro, numa tipografia ou num computador nas contas de mais e menos nos livros de contabilidade, nas contas de passivos e activos dos bancos nacionais de cada Estado-membro. Criamos dinheiro, a partir do nada, portanto. E este sistema é válido por toda a Europa. Todo esse dinheiro é assim criado. E o BCE tem lucros como qualquer outro banco. A Europa terá pois tanto papel-moeda quanto quisermos que ela tenha, nem mais nem menos. E isto embora os bancos privados …possam criar moeda a partir dos créditos concedidos aos privados mas isso é uma outra história que não deve ser para aqui chamada.
CRATCHIT:
Mas então, não tem realmente necessidade de obrigar os europeus a taxas de impostos tão elevadas! Pode sempre mandar fazer mais, ou não pode? A riqueza criada vem depois, os impostos vêm depois com essa riqueza criada e vendida que permite depois pagar os impostos com o dinheiro recebido. Primeiro gerar riqueza, produzir, vender, receber, e depois… pagar o que se deve. Não é assim, com um qualquer país, com uma qualquer economia. Primeiro que tudo antecipar a riqueza, criar os mecanismos para que esta se produza, se venda, se receba, portanto, se pague, depois. É isto ou não é ?
SCROOGE:
Em princípio, sim … sim, Cratchit.
CRATCHIT:
Assim, toda esta história da austeridade, dos impostos antes da riqueza criada, tudo isto não tem nenhum sentido. É impossível haver um défice, uma falta de qualquer coisa que se pode produzir a partir do nada. Não têm estado a colocar o mundo ao contrário, de cabeça para baixo, como dizia Marx, ou ainda a andar para traz? É assim ou não é, senhor Scrooge?
SCROOGE:
Não é bem assim, Cratchit. Não se empolgue, não seja tão convencido! Nunca poderemos admitir que os povos europeus saibam esta verdade de que estamos agora a falar, nunca! Caso contrário estamos fritos, assados, condenados. Se apenas mantivermos a criação de papel-moeda, equivalente sempre ao padrão ouro, para satisfazer a procura dos povos europeus, o papel-moeda tornar-se-á demasiado abundante e perderá então todo o seu valor. O valor das poupanças das populações será assim destruído. Vês, esta é outra forma de te mostrar que andamos sempre a trabalhar para o bem-comum. Temos de convencer as populações, e mais, temos de as convencer de que as dívidas são para pagar e primeiro que tudo.
CRATCHIT:
Não, a ordem é inversa. Ganhar e pagar depois. Além do mais, a maioria dos pobres, dos trabalhadores e dos reformados, não têm poupanças, senhor Scrooge.
SCROOGE:
Mas muitos dos nossos melhores cidadãos, dos mais ricos de entre eles, esses têm, Cratchit. A Europa não existe para servir as necessidades dos pobres e dos humildes. A Comissão Europeia, existe agora, não terá sido assim com Delors mas esses tempos já passaram, esta existe agora para servir as necessidades dos melhores e mais prósperos dos nossos cidadãos. As duas qualidades vivem em conjunto, são irmãs gémeas, não te esqueças disso.
CRATCHIT:
Não concordo com isso, senhor Scrooge. Mas suponho compreender o que diz sobre a necessidade de haver um certo controlo e por vezes até uma forte contenção na emissão de papel-moeda e sobretudo com o nosso padrão-ouro da Europa, para que o valor da moeda permaneça estável. Mas considere o seguinte: como eu disse antes, muitos milhões de pessoas por esta Europa fora estão agora desempregadas. Se fizermos mais papel-moeda, equivalente ao ouro, eu sei, eu não o esqueço, e se o usarmos para pagar as pessoas para que estas façam mais velas ou para que transportem mais carvão das minas de carvão, ou para que tenhamos mais limpa-chaminés a trabalhar, ou para que se criem mais gansos no Natal, para que se façam mais bolos nesta quadra, não significa isto que há tanto mais ouro moeda em circulação por confronto com a massa de bens e serviços colocados à disposição das populações que trabalham. E isto é mesmo assim, é verdade. Mais ainda, senhor Scrooge, como os custos não compreendem os lucros, e como o valor dos bens pode ser expresso por salários+mais rendas+mais lucros, então é seguro que o papel moeda criado é inferior ao valor dos bens e serviços criados depois e, portanto, não perde nenhum valor, antes o ganha. Distribui-se um montante igual ao valor global dos salários, obtém-se uma produção igual ao montante dos salários, mais das rendas, mais dos lucros. Obtém-se um valor superior. Não será antes assim? E sendo assim, cá temos a prova de que a ordem é inversa daquela que têm estado a impor. A vossa lógica leva o mundo para traz, para a pobreza, a minha, a nossa, leva o mundo para a frente, para a produção, para o emprego, para a responsabilidade colectiva.
SCROOGE:
Umm… possivelmente.
CRATCHIT:
E se as empresas da Europa não estão dispostas a contratar pessoas para criar esse pleno emprego, não poderiam os Estados membros contratá-los directamente, dado que o mercado, pelas políticas de austeridade entretanto criadas e pela ganância pela prática bem afirmada, está completamente disfuncional ?
SCROOGE:
Um almoço à borla, é no que está a pensar, eh Cratchit? É a tua solução?!
CRATCHIT:
Não, senhor Scrooge. Ninguém vai ter almoço à borla. Todo a gente vai trabalhar para ganhar dignamente o seu salário. Mas todos serão empregados, e com os salários irão comprar como o faziam antes, antes destas políticas malucas que têm imposto aos povos europeus. E já que todos serão empregados, os empregadores terão que tratá-los melhor e pagar-lhes salário melhor no futuro, sabendo repartir os ganhos havidos com o aumento da produtividade, o que desde há uns largos deixaram de saber, quando os patrões se aperceberam que tinham, toda a força pelo lado deles. Desde os tempos de um cow-boy chamado Reagan e de uma senhora chamada Dama de Ferro porque ganhou uma guerra, a guerra das Malvinas, minto, das ilhas Falkland. Nós iremos pois viver uma vida mais próspera e com menos desigualdade do que aquela com que agora nos debatemos. Alguns terão um pouco menos, mas muitos vão ter muito mais.
SCROOGE:
Infernos, Crachit! Você anda a ler de novo, esses livros de matriz keynesiana, esses sociólogos de matriz social-democrata ou católicos a sério, essas gentes de esquerda, meu Deus. É isso que você anda a ler? E anda a ler esses economistas que nos dizem que os créditos criam os depósitos, gerando pelo meio a riqueza correspondente, como um certo doido, um tal de Bernard Schmitt no-lo descreveu nos anos 70 com os seus livros Monnaie, Salaires et Profits ou ainda um mais simples, La Formation du Pouvoir d’ Achat e como um certo François Rachline o bem percebeu nos anos 90 com um livro De Zero à Epsilon e depois, disso se bem esqueceu ? Ou ainda como autores como Parguez ou outros na mesma linha o explicam muito bem? Autores que deveriam ser banidos da Universidade, é o que eles são.
CRATCHIT:
Olhe, digo tudo isto, porque sim, senhor Scrooge. Mas já que se está a referir ao circuito monetário, lembro-me de um livro do tempo dos meus bisavós, de um livro de 1873, de um livro de Walther Bagehot, Lombart Street, onde se diz a propósito da criação monetária pelos bancos: “ a melhor maneira de expandir um banco num país é permitir-lhe a emissão de papel-moeda. Esta emissão equivale a um subsídio dado a cada banqueiro” . Mas deixei de estudar, sabe, senhor Scrooge.
SCROOGE:
Eu pensei que já lhe tinha aumentado suficientemente as horas de trabalho para estar certo de que não tinha tempo para ler desses livros. Mas já percebi: qualidades ( ou defeitos) ganhos na infância ninguém mais os destrói. Certo, não há machado que corte a raiz ao pensamento, é o que dizem os poetas lá por Portugal. Eu devia saber isto.
CRATCHIT:
Sim, senhor Scrooge. Mas às vezes leio coisas na Internet durante os intervalos do meu trabalho, como na hora do almoço
SCROOGE:
Os inter…valos, o quê? ?? Nunca pensei! Intervalos…Meu Deus, sejai benevolente comigo !
CRATCHIT:
Sr. Scrooge!!!! Isto parece tão mesquinho! Mas mesmo que não tenha nenhum espírito de caridade, até por raiva para com os pobres com quem convivido lá para os lados de Almada, considere então a questão do ponto de vista do auto-interesse bem esclarecido. Se nós pagamos às pessoas para produzir mais bens e serviços, todos nós iremos ficar melhores, ou não é assim? Reparemos: os homens existem, as capacidades e as vontades de trabalhar também, as máquinas e os restantes meios de produção igualmente. Só não existe o quê? A vontade política para que assim seja. Porque é que não queremos que assim seja?
Scrooge:
Não há nenhum “nós” nisto, Cratchit! Há apenas um mundo que resulta do nosso poder, não de gente como tu. Não há pois nenhum nós, contigo. Estamos todos separados, e não contamos como tendo o mesmo valor. Muitas vezes um eu que se ouve num lugar é muito mais importante do que um eu que se ouve num qualquer outro lugar. E todo o sistema funciona apenas se e só mantivermos os graus sociais estabelecidos e a disciplina pública que isso assegure. Essa é a nova função do Estado, em cada Estado-membro em que fica e apenas com o direito à violência para essa ordem manter, a disciplina pública, lembra-te a disciplina, a ordem.
CRATCHIT:
Disciplina, ordem, novamente, senhor Scrooge?
SCROOGE:
Veja, Cratchit, é necessário que tenhamos sempre gente desempregada, a lutarem, a morrerem de fome . Se assim não for, a base social em que assenta a actual Europa e as suas Instituições ir-se-ia desmoronar. Se todos fossem empregados, todos seriam capazes de negociar salários bem mais elevados e seriamos batidos pela concorrência mundial. Ora a concorrência mundial é a bse que alimenta este sistema. O que diria aqueles que agora são meus associados e que dão pelo nome de Jamie Dimon, do JP Morgan, de Blankfein do Goldman Sachs ou Rubin do Citi Corporation por exemplo. E que diriam os meus companheiros e amigos da fundação que conceberam estes nossos programas sob os auspícios de Hayeck e de Milton Friedman, que dirão todos aqueles que estão ligados às ideias apresentadas e defendidas pelos neoliberais da Société du Mont-Pèlerin?. Foram no fundo todas estas gentes e as as suas ideias que me puseram no lugar onde estou. Repara que não fui nem sou eleito para estar aqui, pelos povos que agora governo. Repara que Draghi também não, que Juncker neste seu cargo também não e o mesmo se passa com Rompuy. Olha, vê como Mário Monti, um meu funcionário brilhante, especialista do mercado único, já aprendeu bem a lição. Contornar a Democracia para continuar a ser poder e os nossos interesses continuar a defender. Ora, todos eles me puseram cá. Não foi para defender o Povinho, as gentes como as de Almada, agora que os estaleiros já não tem nada a ver com os dos anos setenta. O meu trabalho agora não é defender os desempregados europeus, não, o meu trabalho, é proteger os interesses da camada superior da sociedade onde me integraram e de onde não quero sair.
CRATCHIT:
Não tinha nenhuma ideia de que era essa a sua missão aqui, senhor Scrooge.
