TEMPO DE NATAL, É TEMPO DE CHARLES DICKENS, É HOJE TEMPO DO BANDO DOS 4 QUE GOVERNA A EUROPA, É TEMPO DE SPARTACUS, DE JESUS, E DE OUTROS MAIS DE QUE A HISTÓRIA HÁ-DE VOLTAR A FALAR.

Selecção e adaptação por Júlio Marques Mota

Uma nova versão de Um Postal de Natal de Dickens e depois de  Dan Kervick, economista  progressista que faz parte do blog New Economic Perspectives, disponível em:  http://neweconomicperspectives.org/

Adaptação de um trabalho de  Dan Kervick à nossa Europa, ao nosso país, ao nosso governo constituído  por gente sem vergonha, às nossas gentes que destes são agora as vítimas. Um trabalho sem pretensões, função da época natalícia com o Gaspar a roubar todos os presépios possíveis, mesmo os imaginários,  tal é a sua senha de procurar satisfazer a Troika.  Um diálogo entre duas personagens do livro de Charles Dickens, Scrooge et Cratchit, diálogo imaginado agora, em Portugal.

Júlio Marques Mota

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 (CONCLUSÃO)

Parte IV

 

SCROOGE:

Será que você nasceu ontem? E onde? Abra-me esses  seus olhos e veja. Não há pior cego do que  aquele que nada quer ver, como é o que se passa com Delors agora, quanto ao futuro do euro!

 CRATCHIT:

Eu sempre pensei que Obama e Boehner eram uma empresa respeitável e com uma missão de bem público. Porque  é que eles alinharam juntos  com esse sórdido negócio de manter as pessoas desempregadas de forma a poder manter os privilégios dos mais ricos?

 SCROOGE:

Talvez tenham obtido a sua posição da mesma forma que eu. Talvez. Com Obama. Talvez não seja bem como eu, talvez seja muito diferente, ma o certo é que os resultados são quase os mesmos.

ESPÍRITOS:

Scroooooooge!

SCROOGE E CRATCHIT:

O que é que foi isto? Quem falou, quem gritou?

ESPÍRITOS:

Scrooge!   Nós somos a consciência do passado. Somos Spartacus com a sua força, somos Cristo com a sua infinita bondade, somos Marx com a sua clarividência do futuro, somos Keynes com a sua precisão de ourives quanto à forma como funciona uma economia de mercado e também como se pode construir  uma nova sociedade, bem diferente, somos Minsky com a sua perspectiva dos mercados financeiros, somos Maurice Allais com a sua visão dos espaços integrados, somos Madre Teresa com a sua enorme bondade, somos Gandhi com a ânsia de paz, somos Patrice Lumumba com  sua capacidade de resistência, somos Olaf Palm com a sua capacidade de  criar uma verdadeira social-democracia, somos a consciência do passado que homens como o senhor têm andado a falsificar… somos também um  pouco desse exemplo bem vivo que é Mandela, com a sua capacidade de  dizer não aos ressentimentos, somos… também a consciência crítica de homens como  o senhor Scrooge  cujos comportamentos abusivos têm de ser banidos à face da Terra.

SCROOGE:

Espíritos, temo-vos, muito sinceramente.  Qual é a vossa  mensagem?

ESPÍRITOS:

Parem com essa vossa missão, parem com essas políticas assassinas que só provocam desgraça.

SCROOGE:

Mas o que é entendem pela minha missão?

ESPÍRITOS:

O interesse público deve ser a vossa missão! Servir a Humanidade é o vosso dever! Eis que a política de pleno emprego foi por vocês abandonada e eis que com as vossas políticas de austeridade, o que fica no presente é a ignorância, a insegurança, a estagnação e o sofrimento dos povos europeus! Considere  bem, o futuro no declínio, na discórdia, na miséria e na queda desta enorme Àgora  que é a Europa, considere que é isto que têm estado a organizar ! Considere  também um declínio ainda bem maior  no futuro, uma maior discórdia, uma maior  miséria e a queda da Europa com guerras pelo meio se assim continuarem a destruir o velho continente.

 SCROOGE:

Então que devemos realmente fazer?

ESPÍRITOS:

Esqueçam de um lado e do outro, esqueçam  o grande e o pequeno Precipício Orçamental. Usem os vossos poderes para fazerem funcionar um sistema monetário como deve ser e não andarem a crucificar toda esta Europa numa cruz de ouro como o têm  andado a fazer, deixem correr os défices apropriados e nos sítios em que devem existir, protejam a Europa de uma concorrência desenfreada, exijam normas de verdadeira equidade, etc. Em suma, façam uma verdadeira mix de políticas económicas.

SCROOGE:

Mas de quanto  é que devem ser os orçamentos deficitários ?

ESPÍRITOS:

Grandes e o  suficiente para se certificarem  que poderão dar empregos a todos os que queiram trabalhar condignamente. Assegurar a confiança na coisa pública, no serviço público na Europa. Cada europeu deve ter um emprego socialmente útil, logo necessário, e com um salário também ele socialmente adequado. A alquimia das moedas de ouro deve ser utilizada para promover o bem-estar de todas as pessoas, não só dos poucos e poderosos . Adeus!

SCROOGE:

Eu não sou capaz, oh Espíritos. Ando há muitos anos a fazer o contrário do que agora me propõem. Já perdi o norte ao que deve ser feito de justo. Mas sinto os povos europeus a levantarem-se. Eles ouviram também o que eu ouvi, meu Deus. Não me vou opor a estes movimentos de mudança, tudo deixarei fazer para a mudança e vou-me eu embora, então. Oh, Espíritos!  Talvez, ainda  não seja tarde!

Eh, rapaz! Eh, rapaz!   Leve esta mensagem para Obama e Boehner .  Diz-lhes que parem com o Grande Precipício Orçamental, diz-lhes que nós paramos com o nosso, diz-lhes que vamos criar uma nova ordem internacional, uma nova Organização Mundial do Comércio, que vamos despedir  Pascal Lamy na OMC,  diz-lhes que o vamos deslocalizar e que o vamos colocar a ganhar o salário do operário chinês  da Foxconn como castigo durante um ano e sem outra fonte de rendimentos, diz-lhes que vamos defender também as agricultoras de proximidade, que vamos defender um novo código para os investimentos directos estrangeiros. Diz-lhe que o bando dos quatro se vai também embora, diz à melhor pomba do mundo actual que faça o máximo que puder. Ele pode, ele quer, ele sabe, eu não, depois de tantos anos a defender a austeridade como sistema.

RAPAZ:

Sim, eu vou!

SCROOGE:

E  Cratchit, leva-me ao teu filho, ao pequeno  Portugal !

CRATCHIT:

Sim, senhor  Scrooge!

SCROOGE:

Oh, Pequeno  Portugal, meu filho,  Eu tenho um presente para ti, meu filho, agora que me vou embora!

PEQUENO PORTUGAL:

É um iPad do último modelo?

SCROOGE:

Não, é algo ainda melhor do que um iPad! É um futuro, Portugal, é  um futuro real! Sim, não é virtual! Não, não é o futuro dos Espíritos, mas um futuro em que vais ter um trabalho digno, uma vida decente. Nesse futuro que agora te trago, ninguém, nem tu, terá que viver com horários miseráveis, com uma insegurança de arrepiar  e que têm andado sempre a diminuir os vossos padrões de vida desde há cinco anos. Com este futuro que agora te ofereço podes pensar no teu amanhã sem temer que o teu pai fique sem emprego ainda hoje e todos os dias. Esse medo acabou, acabou hoje.  É um futuro em que se pode cuidar da sua família, dos seus filhos e dos seus avós sem nunca mais assistirmos a  que o Estado esteja a roubar todos estes como o faz o Passos Coelho agora, trago um futuro em que cada um também terá tempo para si. É um futuro com menos medo e  com menos ansiedade também, em que partilhamos a prosperidade geral da nossa grande Ágora, desta nossa Europa onde a Grécia será imediatamente integrada como igual entre todos os iguais. É um futuro que todos terão o direito, a possibilidade de construir. Para isso temos nós que ir embora e vamos embora. Temos medo.

A FAMÍLIA DE  CRATCHIT:

Isto é um milagre, Deus meu!

CRATCHIT:

Não é um milagre, é o resultado da vontade dos homens de boa vontade que estão já a levantar e que estão também já chegar ao poder. É o seu espirito a transformar esta realidade!

PEQUENO PORTUGAL:

Deus nos abençoe! Deus nos abençoe, a todos nós !

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