
Como dissemos na altura, a divergência entre as posições de Ramonet e Galeano, defendendo a utopia, e a de Saramago, recusando a utopia e preferindo-lhe a dedicação, o trabalho, em suma, a militância (o termo que não empregou, mas em que por certo pensou), essa diferença não é tão grande como possa parecer.
Porém, numa outra intervenção, José Saramago aduziu um argumento de peso – se sonhamos a sociedade do futuro, fazemo-lo com os dados actuais, ou seja, queremos para os nossos netos aquilo que gostaríamos de ter agora para nós. As nossas esperanças e temores enformam a utopia. No entanto, os nossos netos quererão necessariamente outras coisas, temerão coisas que não podemos sequer imaginar. Porém não se trata do que desejamos para as gerações futuras, mas daquilo que almejamos para nós. Pode dizer-se que a utopia dos nossos avós foi ultrapassada pela realidade – nunca ousariam pedir aquilo que nós temos e, no entanto, o facto de termos superado a utopia das lutas do século XIX, não nos satisfaz – a nossa utopia é outra e outra será a dos nossos netos.
Parece-nos que neste aspecto, a razão estava do lado de Saramago. Sem irmos ao ponto de defender que a palavra utopia devia ser erradicada dos dicionários (ele disse-o ironicamente, claro), achamos que travarmos as batalhas pelo que desejamos para nós, militantemente – sem reduzir o conceito à sua estrita dimensão partidária – estamos a cumprir a utopia dos nossos avós e a preparar a dos nossos netos.
