As eleições são mercados de ilusões. Os políticos partidários, jogam com os sonhos do seu eleitorado – os sonhos são diferentes (os sonhos de uns são os pesadelos de outros…), mas o princípio é igual – diz-se o que o eleitor quer ouvir. Não têm consciência de que estão a mentir – estão a expor a utopia, aquilo que, segundo as teses partidárias, constitui o objectivo a atingir.
Foi em 2005 num painel do V Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, Brasil. O tema em debate era o da política e a utopia acerca do personagem Don Quixote de la Mancha, da obra de Miguel de Cervantes – Quixotes hoje: utopia e política. Entre os participantes, o Nobel de Literatura, José Saramago, e o escritor uruguaio Eduardo Galeano.
Ignacio Ramonet, director do Le Monde diplomatique encerrou o discurso assim: “Temos milhares de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia, enquanto uma vaca europeia recebe quatro dólares. Isso é um escândalo. Vale mais ser uma vaca europeia no mundo do que uma pessoa!. Isso é um mundo tremendamente desigual- “Por isso proponho a realização de uma força mundial contra a fome, a supressão dos paraísos fiscais, a supressão da dívida externa dos países pobres, a moratório de água potável para todo o mundo e a definição de impostos de solidariedade para as maiores fortunas do mundo”.
José Saramago recusou firme e liminarmente o conceito de utopia: “O que transformou o mundo não foi a utopia, mas a necessidade. Se a realização de nossas utopias ocorressem em breve não se chamariam utopia, mas trabalho e dedicação! Sugiro a retirada desta palavra do dicionário” […] “O discurso político manipula, existe apenas para esconder algo. Essa é a arte de camuflar a verdade. Quem é que escolhe os líderes das organizações internacionais? Onde está a democracia?”[…] “As nossas democracia estão amputadas, foram sequestradas, pois hoje os nossos poderes como cidadãos consistem em trocar um governo de que não gostamos por outro que não conhecemos.
Eduardo Galeano, afirmou que a utopia serve para caminhar “uma vez que, independente de quanto andemos, ela sempre estará há dez ou 20 passos de nós, na linha do horizonte”.Contou a história de um pintor que conheceu na Bolívia. Perante paisagens de cinzas e vegetação morta, pintava obras de cores vibrantes, vivas e exuberantes. “A utopia antepõe os ideais à frente de tudo, pois também é real quando se pinta a realidade de que se necessita porque em toda barriga há a possibilidade de um novo mundo”.Foi Charles De Gaulle quem disse que a política é coisa demasiado séria para ficar nas mãos dos político. Mas é nas mãos de políticos que a política está.
Bem podemos sonhar!
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