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Apenas três opções para a recuperação de Espanha

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ESPANHA, EXISTE?

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edição e tradução Júlio Marques Mota

Apenas três opções para a recuperação de Espanha

 Fábius Máximus · 20 de Novembro de 2012

Resumo: A crise da zona euro começou em Março de 2010, e as suas causas e os seus elementos básicos continuam ainda a permanecer muito mal compreendidos- inclusive, por muitos dirigentes europeus ao ter-se em conta as suas declarações públicas. Aqui, o Prof Pettis dá uma clara explicação do que está a acontecer e, na sua opinião, quanto à Espanha há apenas três maneiras deste país sair da crise.

Excerto de “Três saídas face aos novos dados?”

Michael Pettis (Prof. de Finanças da Universidade de Pequim),

12 de Novembro de 2012

Três opções de Espanha

Finalmente, e para nos distanciarmos da China nós estamos a presenciar um renovado período de crescente optimismo quanto às perspectivas de evolução da Europa mas devemos refrear-nos de nos juntarmos a estes optimismos. O optimismo irá rapidamente desaparecer. Num grande debate sobre as economias de países como a Espanha, às vezes nós esquecemos a aritmética simples do reequilíbrio económico. Esta aritmética, goste-se ou não, limita severamente as opções disponíveis para esses países.

Por muitos anos mais, graças, em parte, às más políticas aplicadas na Espanha, mas devidas principalmente às tentativas agressivas da Alemanha para alcançar o crescimento económico através da obtenção de excedentes comerciais relativamente aos seus vizinhos europeus, a Espanha e muitos outros países da Europa, têm estado sujeitos a enormes défices comerciais. É fácil e é popular culpar a ganância dos espanhóis e a estupidez do governo pelo caos social e económico em que a Espanha se viu atolada, mas as políticas postas em prática na Alemanha no final de 1990 garantiram que a Alemanha, um país que tinha tido enormes défices comerciais na década de 1990, poderia eventualmente passar a ter excedentes comerciais igualmente enormes na década posterior.

Porque uma vez que eles se juntaram na criação do euro, o resto da Europa deixou de ter qualquer controle sobre o valor das suas moedas e sobre o nível de suas taxas de juros e era assim inevitável que os países europeus que aderiram ao euro com níveis de inflação mais elevados do que a média, seriam mais tarde forçados a responder aos excedentes comerciais alemães ou forçando-se o desemprego ou forçando-se o consumo, e assim se realizaram os seus grandes défices comerciais que correspondiam ao excedente comercial da Alemanha. Nenhuma outra escolha era possível.

Estes défices tinham que, por uma questão de necessidade económica, ser financiados com empréstimos da Alemanha, deixando a Espanha com uma dívida enorme, com um enorme serviço da dívida igualmente. Da mesma maneira que a Espanha não poderia ter um défice comercial sem empréstimos no exterior, a Espanha só pode pagar a sua dívida, se vier a ter um excedente comercial. Mais ainda, já que os espanhóis ricos estão a fugir com enormes quantidades de dinheiro para fora do seu próprio país, a fim de se protegerem da crise da dívida que eles sabem que estará rapidamente a chegar, o excedente comercial espanhol deve ser suficientemente grande para compensar os enormes volumes de fugas de capital e o pagamento do serviço da dívida.

Na prática, existem apenas três maneiras de a Espanha poder alcançar um excedente comercial suficientemente grande para estar á altura destas necessidades.

A primeira forma

A primeira maneira requer que Berlim inverta as políticas que têm levado a um excedente comercial alemão às custas dos seus vizinhos europeus. Berlim deve cortar nos seus impostos e aumentar as suas despesas públicas de modo a que a Alemanha venha a ter um grande défice comercial e suficiente grande para permitir que a Espanha venha a ter, inversamente, um excedente o que deve necessariamente ter se tem que pagar a sua dívida.

Este, por sinal, é exactamente o que John Maynard Keynes exigiu que os EUA fizessem no final de 1920 se quisessem evitar uma crise global. Os EUA ignoraram Keynes, e a crise ocorreu exactamente nos moldes em que ele a previu. Hoje, a Alemanha, com uma incompreensível ou mesmo irracional arrogância e teimosia assume pois uma posição semelhante à que os Estados Unidos tiveram na década de 1920, recusando-se a fazer o que é necessário fazer para evitar uma crise.

Mas, e este é o ponto chave, se a Alemanha não inverte rapidamente a sua posição comercial fortemente excedentária a Espanha então terá apenas as duas outras vias de criar um excedente comercial face à brutal teimosia alemã.

A segunda opção

Uma destas duas vias exige que os salários espanhóis sejam forçados a descerem e durante muitos anos com altas taxas de desemprego. Isso permitirá que a Espanha possa vir a ter excedente comercial suficientemente grande.

Em parte por esta razão, a Espanha pode criar uma posição de excedentes comerciais se os salários em Espanha descerem relativamente aos salários da Alemanha, e as mercadorias espanholas tornar-se-ão mais competitivas nos mercados internacionais, mas a verdadeira razão pela qual a Espanha pode criar e manter uma posição de excedente comercial após muitos anos de desemprego é que os trabalhadores espanhóis terão simplesmente muito pouco poder de comprar para poderem comprar muita coisa.

A terceira opção

A terceira opção da Espanha é deixar o euro e desvalorizar. Isso vai forçar imediatamente os preços e salários relativos a baixarem relativamente à Alemanha.

Nenhuma destas duas opções vai ser fácil, mas é importante que percebemos que, se a Alemanha não se ajusta, Madrid não tem outra escolha que não seja escolher uma das duas opções apresentadas. Em ambas as opções se fará com que a dívida dispare em termos reais, e provavelmente irá forçar as empresas espanholas, e até mesmo o governo, a entrarem em situação de incumprimento, de default, mas em ambos os casos, a Espanha irá passar a ter grandes excedentes comerciais.

Por mais que os líderes em Madrid, Bruxelas e Berlim odeiem em admitir isso, estas são as únicas três opções para a Espanha. Qualquer outra política de saída da crise proposta pelos políticos que não seja consistente com uma destas três vias será impossível de alcançar.

O caminho que eles escolheram

Por agora, a Espanha implicitamente escolheu a opção de desemprego, na esperança de que ele será capaz de se ajustar dentro de um ou dois anos e, eventualmente, possa retomar a normalidade. Nenhum país, afinal, pode suportar o drama que a Espanha está a viver hoje sem uma grave deterioração do seu tecido social e político.

Mas tanto a história como o bom senso ensinam-nos muito bem que a ideia de que depois de um ou dois anos a mais de ajustamentos a Espanha irá ter resolvido os seus problemas de dívida e pode então assim estar a reduzir o desemprego é uma ideia verdadeiramente absurda, uma ideia sem qualquer sentido. A situação será muito mais longa que isso. Se a Espanha quer continuar no seu caminho actual, deve estar preparada para sofrer pelo menos mais cinco anos de desemprego extraordinariamente elevado, deve estar preparada para sofrer uma erosão das capacidades produtivas da sua economia e deve estar preparada para enfrentar um caos político crescente.

Ou pode deixar o euro. Dada a rapidez com que o ambiente político se está a deteriorar, eu tenho poucas dúvidas de que vai deixar o euro. Infelizmente vamos ter que esperar mais alguns anos para que Madrid possa conduzir a economia para uma situação de estabilidade e que seja capaz de evitar rasgar o tecido social do país antes de ter escolhido a opção de a desvalorizar. Mas eu espero que eles eventualmente o consigam.

Original

Spain’s’ only three options for recovery

 

17 NOVEMBER 2012

tags: europeeuropean economic and monetary unionmichael pettisspain

by Fabius Maximus

Summary: The Euro-crisis began in March 2010, and yet its causes and basic elements remain widely misunderstood — including, based on their public statements, by many of Europe’s leaders. Here Prof Pettis gives a clear explanation of what’s happening, and of Spain’s only three ways out of this crisis.

Excerpt from “Three cheers for the new data?”

By Michael Pettis (Prof of Finance, Peking University)
November 12, 2012
Republished with his general permission.

Spain’s three options

Finally, and to turn away from China, we seem to be experiencing a renewed period of increased optimism over European prospects, but we should refrain from joining in. The optimism will soon fade. In the great debate over the economies of countries like Spain, we sometimes forget the simple arithmetic of economic rebalancing. This arithmetic, like it or not, severely limits the options open to these countries.

For many years, thanks partly to bad policies in Spain but mainly to aggressive attempts by Germany to achieve growth by forcing a trade surplus onto its European neighbors, Spain, and many other countries in Europe, ran enormous trade deficits. It is easy and popular to blame the greed of the Spanish and the stupidity of the government for the mess in which Spain has found itself, but the policies Germany put into place in the late 1990s guaranteed that Germany, a country that had run massive trade deficits in the 1990s, would run equally massive trade surpluses in the subsequent decade.

Because once they joined the euro the rest of Europe had no control over the value of their currencies and the level of their interest rates, it was inevitable that European countries that had joined the euro with higher-than-average levels of inflation would be forced to respond to German trade surpluses either by forcing up unemployment or by forcing up consumption, and so running the large trade deficits that corresponded to Germany’s trade surplus. No other choice was possible.

These deficits as a matter of economic necessity had to be financed with loans from Germany, leaving Spain with an enormous debt burden. Just as Spain could not run a trade deficit without borrowing from abroad, Spain can only repay its debt if runs a trade surplus. What is more, since rich Spaniards are taking enormous amounts of money out of the country in order to protect themselves from the debt crisis they know is coming, the Spanish trade surplus must be large enough to accommodate both flight capital and debt repayments.

In practice there are only three ways Spain can achieve a sufficiently large trade surplus.

The first way

The first way requires that Berlin reverse those policies that forced a German trade surplus at the expense of its European neighbors. Berlin must cut taxes and increase spending so much that Germany runs a trade deficit large enough to allow Spain to run the opposite surplus, which it must do if it hopes to repay the debt.

This, by the way, is exactly what John Maynard Keynes demanded that the US do in the late 1920s if it wanted to avoid a global crisis. The US ignored Keynes, and the crisis occurred just as he predicted. Germany, with the same uncomprehending stubbornness today that the United States displayed in the 1920s, refuses to do what is necessary to prevent a crisis.

But, and this is the key point, if Germany does not move quickly to reverse its trade surplus, Spain only has two other ways of creating a trade surplus in spite of German recalcitrance.

The second way

One way requires that Spanish wages are forced down by many years of high unemployment. This will allow Spain to run a sufficiently large trade surplus.

Part of the reason Spain can then run a trade surplus is that as wages drop relative to those of Germany, Spanish goods will become more competitive in the international markets, but the real reason why Spain will run a trade surplus after many years of unemployment is that Spanish workers will simply be unable to afford to buy much.

The third way

Spain’s second option is to leave the euro and devalue. This will immediately force down prices and wages relative to Germany.

Neither option will be easy, but it is important that we realize that if Germany doesn’t adjust, Madrid has no choice but to pick one or the other. Both options will cause debt to soar in real terms, and will probably force Spanish businesses, and even the government, into default, but in both cases Spain will begin running large trade surpluses.

As much as leaders in Madrid, Brussels and Berlin hate to admit it, these are the only three options open to Spain. Any policy proposed by policymakers that is not consistent with one of these three ways will be impossible to achieve.

The path they’ve chosen

For now, Spain has implicitly chosen the option of unemployment, in the hopes that it will be able to adjust in one or two years and eventually resume normalcy. No country, after all, can bear the pain that Spain is bearing today without a serious deterioration in the social and political fabric.

But both history and common sense teach us that the idea that after one or two more years of adjustment Spain will have resolved its debt problems and can bring unemployment down is nonsense. It is going to take much longer than that. If Spain wants to continue along its current path, it must be prepared to suffer at least another five years of extraordinarily high unemployment, an erosion of the productive capabilities of its economy, and rising political chaos.

Or it can leave the euro. Given how rapidly the political environment is deteriorating, I have little doubt it will leave the euro. Unfortunately we will have to wait a few more years for Madrid to drive the economy into the ground and to rip apart the country’s social fabric before they choose to devalue. But I fully expect they eventually will.

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