Galiza negra
Algumas noites de inverno na Galiza são tranquilas e calmas. Não é preciso nevar, ainda que o lento cair da neve imita bem o que quero dizer. Algumas vezes, no inverno da noite, o único que bule até à ebulição é o pensamento.
Que foge para as terras quentes do Sul, longe dos problemas locais. Esquecido do esquecimento, pula por cima das fronteiras e dos mares, imagina outros continentes, outras faces, outras cores, a beleza de outras peles, de outras línguas.
Vê maravilhas. Mas também séculos de torturas e morte, famílias quebradas, tribus desfeitas, desintegrados os membros, culturas, costumes, territórios semeados de opressão. Depois do genocídio, o que resta ao povo que sobrevive?
Pensamento voa, carne não. O mais grave da tortura não foram as feridas do corpo, mas a impossibilidade do retorno, a marca emocional que vive sempre em nós e arde até à última hora.
O grave não foi a obrigação de aprender a língua de outrem, mas todo o que fomos obrigados a ignorar sobre a nossa e sobre nós. O vácuo. Porque a de outrem é incapaz de nos compreender como a nossa faz.
Retorna o pensamento e Compostela ainda está escura, também é negra, também é indígena. Em Portugal, o que resta aos nativos portugueses? Deixar espaço. Dar a mão. Que na roda da noite entram todas as dançantes, tam-taneando de pés na terra, pelo agromar duma nova e diferente primavera lusófona.
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