Da África galega
Na Galiza habituamo-nos a prescindir daquilo que é mais necessário quando nos falta durante muito tempo. Podemos não respirar e ir vivendo contra todas as leis da ciência, da experiência e da melancolia.
É habilidade adquirida na dureza da marcha, junto a de escutar as pedras e enxergar ao longe, de mão aberta na sobrancelha. Por isso quando no horizonte vemos os sinais que atravessam o azul e de ouvido na água sentimos ecos de cantares amigos
hei de inventar
um verso que vos faça justiça
abrimos os braços em arco como querendo apanhar um livro da estante superior, e lendo na página onde Mia Couto diz
por ora
basta-me o arco-íris
de todas as cores, espelho da Galiza, a África fala para nós e tinta saudades
em que vos sonho
basta-me saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
e por vivermos de mais, que dor é vida, e ausência é espinho que fere a carne ainda mais do que a traição
mas que permaneceis sem preço
porque sem valor de compra. Sem preço porque únicas. Sem preço porque desprezadas, silenciadas, ignoradas. E ainda assim, sem preço, porque nada mais valioso do que a liberdade.
Há companheiras boas e generosas do outro lado do azul que nos entendem e nos falam na rumorosa língua de arume harpado. Que sabem o que somos porque são como nós, calótipo fotográfico da mesma história, da mesma injustiça e da mesma ânsia de viver.
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