
Lídia Jorge, com dois livros na lista, (Costa dos Murmúrios e O Dia dos Prodígios), diz uma verdade – os membros do Opus Dei deviam ter “vergonha” e classifica quem fez a listagem de “gente retrógrada e abstrusa”.. “”Deus é um filho da puta”, escreveu Saramago num dos livros proibidos (Caim)., escritor que tem 12 livros, entre os quais Caim, o Evangelho Segundo Jesus Cristo, o Manual de Pintura e Caligrafia e o Memorial do Convento são definidos como muito perigosos. A presidente da Fundação Saramago, a viúva do escritor, o presidente da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), José Jorge Letria, o antigo director da Biblioteca Nacional, Carlos Reis, todos condenaram a atitude da Ordem. Condenável, na verdade, mas sobretudo negativa para a imagem de uma estrutura que já de si configura tudo o que de mafioso o Opus Dei representa. No meio destas declarações de circunstância, saudamos, no entanto, a reacção de Borges Coelho, autor de A Revolução de 1383,: o facto de o seu livro estar na lista até lhe dá “vontade de rir”, uma vez que “não tem que ver com a doutrina da Igreja, é um livro objectivo sobre um período fantástico da História de Portugal.
Especialistas em Direitos Humanos são da opinião que “a lista não levanta um problema de legalidade porque essa imposição é prescrita apenas no interior da organização, sendo uma espécie de recomendações para os fiéis”. Cai no âmbito específico do direito canónico. Conforme tínhamos dito, a lista é legal enquanto disposição interna, mas o caso muda de figura se um professor que seja membro do Opus Dei não der, por exemplo, Os Maias a ler aos seus alunos porque a organização o proíbe.
Mais grave do que esta questão que não tem gravidade nenhuma é o poder económico que o Opus dei tem vindo assumir. Em Portugal, o Opus Dei não tem praticamente bens em seu nome. Na realidade, o seu património, controlado por membros da organização é superior a 50 milhões de euros. Colégios, prédios, terrenos, um hotel, uma escola No registo comercial não há qualquer fração deste património em nome do Opus Dei, mas os administradores confirmam a ligação à obra, que, aliás, foi assumida ao DN pela própria cúria do Opus Dei em Portugal. Os imóveis que servem de suporte à obra são propriedade de cooperativas, de associações e da Fundação Maria Antónia Barreiro, que detém os principais equipamentos. Juntando as dezenas de estruturas, prédios e palacetes de associações e cooperativas ao património declarado às Finanças pela fundação, o valor ultrapassa facilmente os 50 milhões de euros.
O facto de o património da obra estar disperso já levou a acusações públicas de tentativa de ocultação de riqueza. O líder do Opus Dei em Portugal, José Rafael Espírito Santo, garante que “ninguém nega” que estas actividades estão ligadas ao Opus Dei e que este tipo de modelo “é uma questão de princípio, não de estratégia”. Assume, portanto, que este património milionário é gerido por membros da obra , sendo, simultaneamente, o suporte material do Opus Dei. Um poder económico crescente nas mãos de pessoas que não podem ler heresias, tais como a de que Deus é um filho da puta, mas que podem especular, praticar a usura e entrar em negóicios obscuros em nome de uma obra dita de Deus.
