EDITORIAL – AINDA O «INDEX» DO OPUS DEI

Imagem2Compreende-se perfeitamente a agitação que se está a fazer em torno da lista de livros que o Opus Dei distribuiu pelos seus membros, pondo restrições a mais de trinta mil livros distribuídos por vários níveis de gravidade – nos três níveis mais elevados, encontram-se 79 livros de escritores portugueses. Compreende-se que os editores, os livreiros e os próprios autores, protestem e se mostrem indignados. José Saramago e Eça de Queirós são os escritores portugueses com mais livros na tal lista. Compreende-se, mas não se acredita numa indignação genuína, pois na realidade, todos os escritores gostariam de ter, pelo menos, um livro na lista – perder a oportunidade dada pela ordem de activar acções de marketing e de potenciar a venda livros, seria  errado. Comparar uma lista de uma ordem religiosa ao Index, às fogueiras do Santo Ofício, é um pouco ridículo e até um insulto à memória dos que pereceram no meio de indizíveis sofrimentos..

Lídia Jorge, com dois livros na lista, (Costa dos Murmúrios e O Dia dos Prodígios), diz uma verdade – os membros do Opus Dei deviam ter “vergonha” e classifica quem fez a listagem de “gente retrógrada e abstrusa”.. “”Deus é um filho da puta”, escreveu Saramago num dos livros proibidos (Caim)., escritor que tem 12 livros, entre os quais Caim, o Evangelho Segundo Jesus Cristo, o Manual de Pintura e Caligrafia e o Memorial do Convento são definidos como muito perigosos. A presidente da Fundação Saramago, a viúva do escritor, o presidente da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), José Jorge Letria, o antigo director da Biblioteca Nacional, Carlos Reis, todos condenaram a atitude da Ordem. Condenável, na verdade, mas sobretudo negativa para a imagem de  uma estrutura que já de si configura tudo o que de mafioso o Opus Dei representa. No meio destas declarações de circunstância, saudamos, no entanto, a reacção de Borges Coelho, autor de  A Revolução de 1383,: o facto de o seu livro estar na lista até lhe dá “vontade de rir”, uma vez que “não tem que ver com a doutrina da Igreja, é um livro objectivo sobre um período fantástico da História de Portugal.

Especialistas em Direitos Humanos são da opinião que “a lista não levanta um problema de legalidade porque essa imposição é prescrita apenas no interior da organização, sendo uma espécie de recomendações para os fiéis”.  Cai no âmbito específico do direito canónico. Conforme tínhamos dito, a lista é legal enquanto disposição interna, mas o  caso muda de figura se um professor que seja membro do Opus Dei não der, por exemplo, Os Maias  a ler aos seus alunos porque a organização o proíbe.

Mais grave do que esta questão que não tem gravidade nenhuma é o poder económico que o Opus dei tem vindo assumir. Em Portugal, o Opus Dei não tem praticamente bens em seu nome. Na realidade, o seu património, controlado por membros da organização é superior a 50 milhões de euros. Colégios, prédios, terrenos, um hotel, uma escola No registo comercial não há qualquer fração deste património em nome do Opus Dei, mas os administradores confirmam a ligação à obra, que, aliás, foi assumida ao DN pela própria cúria do Opus Dei em Portugal. Os imóveis que servem de suporte à obra são propriedade de cooperativas, de associações e da Fundação Maria Antónia Barreiro, que detém os principais equipamentos. Juntando as dezenas de estruturas, prédios e palacetes de associações e cooperativas ao património declarado às Finanças pela fundação, o valor ultrapassa facilmente os 50 milhões de euros.

O facto de o património da obra estar disperso já levou a acusações públicas de tentativa de ocultação de riqueza. O líder do Opus Dei em Portugal, José Rafael Espírito Santo, garante que “ninguém nega” que estas actividades estão ligadas ao Opus Dei e que este tipo de modelo “é uma questão de princípio, não de estratégia”. Assume, portanto, que este património milionário é gerido por membros da obra , sendo, simultaneamente, o suporte material do Opus Dei. Um poder económico crescente nas mãos de pessoas que não podem ler heresias, tais como a de que  Deus é um filho da puta, mas que podem especular, praticar a usura e entrar em negóicios obscuros em nome de uma obra dita de Deus.

2 Comments

  1. Sempre pensei que o INDEX tinha desaparecido para sempre -Afinal a saga do index continua ,agora s claras ….Lamentvel! Por isso ,os programas se mudam ….mensagem compreendida …por favor ,no misturem as guas ….deixem-nos Liberdade de pensar e escrever .. Maria S

  2. Grave é que a Universidade Católica tenha eliminado um curso de pós-graduação sobre Saúde Pública porque uma daquelas organizações de fanáticas pretensamente “pró-vida” – mas, na realidade, pró-morte de tudo o que ultrapasse o montículo de ideias básicas que ocupam os crânios da récua de criaturas imbecilizadas em que enfileiraram -, “denunciou” (!) que alguns médicos, docentes nesse curso, tinham feito campanha a favor da aprovação da Lei da IGV. E a tal Universidade, que assim demonstra nada ter de cristã (uma coisa ligada à doutrina de um tal Jesus Nazareno – que se caracterizava pela sua tolerância -, traída a cada momento pelos que se dizem seus seguidores), nem – o que é pior – da exigível integração num Estado soberano e laico, acatou acéfala e ilegalmente essa abjecção (não porque não corresponda, eventualmente, à verdade dos factos, mas por não caber num Estado de Direito e ser, em si mesma, pidesca e fascista).
    Grave, porque a Universidade Católica não é um qualquer instituto teológico, apenas dependente da hierarquia católica e dirigido tão só ao condicionamento ideológico dos membros de uma igreja, mas uma instituição que, como agente de ensino, depende das leis da República e é tutelada pelo Ministério da Educação, cujo silêncio, em torno desta atentado ao texto constitucional e às leis que regem o exercício do ensino por entidades privadas, é ensurdecedor! Perante esta vergonha, o actual ministro, ilustre matemático e que me fez acreditar ser homem de cultura e pessoa de bem, assobia para o ar (mas, ainda assim, em surdina), por pura cobardia política ou porque, afinal, o amor pela Cultura, pela Ética e pela Democracia era demasiado frágil para resistir à tentação dos luzidos ouropéis do poder. Assim se desvenda qual é, afinal, o verdadeiro carácter de quem se assumia tão assertivo, esclarecido e sabedor no discurso “opinante” que difundia pelas cátedras que os “media” lhe iam pondo à disposição.
    A menos que tão douta criatura só saiba ler símbolos matemáticos…

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