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MARIA – Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

Eu, António de Oliveira Salazar, sou a paixão secreta da Maria, a minha governanta. Sei mas não o demonstro, avassalo. Não se lamenta, não abre a boca, virgem fiel, fidelíssima, sempre à espera daquele que se nega a desvirgá-la… Está comigo desde a “República dos Grilos”, em Coimbra, onde já era a governanta. Fala-me é das serras e da neve, da Primavera a romper, do gado, do milho a desfolhar, das eiras, das alfaias e da lavoura. Também se queixa das criadas lerdas no casarão de S. Bento, e das vendedeiras do mercado que tentam roubá-la nos preços, que a cidade não tem emenda, é só ladrões. Gosto de ouvi-la, entretém-me. Está sempre a vigiar quem me visita, cão de guarda. Um dia aponto-lhe os Ministros que acabam de sair do meu gabinete e digo-lhe que eles deviam era estar na cadeia. Pergunta-me por que não os mando então prender. Respondo que não vale a pena, pois já roubaram tudo o que tinham para roubar. Ela sabe que roubar, eu cá não roubo. Apenas deixo que uns tantos roubem para que melhor me sirvam. Mas isto a Maria não pode entender, é muito ignorante.

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