AFILHADAS – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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Os povos antigos, ou são tristes ou são cínicos; a nós, portugueses, coube ser tristes. É frase lapidar e assim descarto o cinismo que me assacam.

Somos povo sorumbático mas, espicaçados, em heróis nos convertemos. Somos povo fincado à terra mas, espicaçados, metemo-nos a caminho e damos novos mundos ao mundo. Amália Rodrigues anda lá por fora a promover a tristeza que será nossa. Eu, Salazar, não gosto de fados mas a tristeza dá-me jeito. Sejam tristes, não me aborreçam, eu é que sei o que é bom para todos, eu é que sei quando devo espicaçar.

Aos fins de semana as minhas afilhadas chegam a meter em S. Bento uma dúzia de amigas e colegas. É um bando de raparigas a palrar de manhã até à noite. Isto, realmente, não é tristeza, mas algazarra que eu suporto, aliás a única. Verdes meninas a chilrear, deleite meu…

As minhas afilhadas… Nas férias mandei a mais velha visitar a mãe. E ela foi, mas não correu bem o reencontro, quem me contou foi a Maria, a minha governante. A rapariga perguntou à mãe por que motivo é que a filha de uma simples rural vivia em Lisboa com o Presidente do Conselho.

Perguntou mais:

– Senhora, quem é afinal o meu pai?

E a mãe não soube o que responder, baixou os olhos, corou. Tola, foi sempre tola… Não posso perder tempo com estas coisas, importante é a incumbência que Deus me deu.

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