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CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 16 – por José Brandão

Guerra entre Portugal e Castela

Bem acidentados corriam os negócios políticos da monarquia castelhana, onde as ambições e fermentos de revolta explodiam em lutas e desordens que pareciam intermináveis. O moço rei, inexperiente e mal aconselhado, não sabia libertar-se de influências apaixonadas para manter em elevação condigna as normas da justiça e da administração, e, em vez de procurar a força na defesa dos grandes interesses nacionais, desperdiçava energias e prestígio em lutas isoladas com senhores poderosos e turbulentos. Em Afonso XI reflectiam-se os vícios do meio em que fora educado, da sociedade em que vivia, anarquizada pela desenvoltura das paixões, e, como a dissolução dos costumes era uma das notas características da época, não tardou que a insuficiência do monarca fosse agravada pelas infidelidades do marido. Tornou-se escandaloso o procedimento de el-rei com sua esposa D. Maria, «a quem tratava com grandes disfavores, & com muy poucas mostranças de verdadeyro amor», segundo a expressão do nosso Rui de Pina.

Os devaneios do adultério tornaram-se causa de novas dissensões. Em 1330 apaixonou-se el-rei de Castela por D. Leonor de Gusmão, filha de D. Pedro Nunes de Gusmão e de D. Beatriz Ponce de Leão. Já viúva, contava apenas dezanove anos de idade e era de rara formosura. Afonso XI de tal forma se deixou enlear dos encantos de Leonor que se rendeu completamente ao fogo da paixão e desculpava a leviandade com o desgosto de não ter filho da esposa ao cabo de dois anos de consórcio. Bem mais prolífica, na verdade, era Leonor de Gusmão, que ia dando filhos uns após outros com admirável regularidade anual. Pela sua parte, em 1332 deu a rainha à luz o seu primeiro filho, Fernando, que faleceu no ano seguinte, e em 1334 o segundo, Pedro, que sucedeu ao pai e na história se tornou conhecido pelo cognome de Cruel.

Das infidelidades passou o rei de Castela ao desprezo e aos vexames infligidos à rainha sua esposa. Não o demoviam conselhos, nem o abalaram as admoestações do pontífice, enviadas por súplica dalguns dos representantes da mais alta nobreza castelhana. D. Afonso IV ia dissimulando o desgosto que lhe causava a sorte de sua filha e tratava entretanto de ajustar o casamento de D. Pedro, seu filho, com D. Constança, filha de D. João Manuel, a mesma que fora repudiada por Afonso XI. Este valeu-se de intrigas para obstar ao casamento, em razão do velho ódio que tinha a D. João Manuel, o que não impediu que os ajustes se concluíssem em Estremoz, entre D. Afonso IV e os procuradores de D. João Manuel e de D. Constança (Fevereiro de 1336). Dias depois fez-se em Évora o casamento por procuração. Nem por isso Afonso XI represou a sua entranhada má vontade, antes, apesar de todas as instâncias e suaves conselhos, se opôs decididamente à forçosa passagem de D. Constança pelos seus estados para chegar a Portugal. Esta afronta fez revolver no ânimo de D. Afonso IV os agravos anteriormente recebidos na pessoa de sua filha e despertar os ímpetos belicosos que lhe eram naturais. Ouvidos os seus conselheiros, decidiu mover guerra a Castela. Começou a luta com as assolações, roubos, incêndios e morticínios que estavam nos costumes bárbaros daquele tempo.

Enquanto o conde de Barcelos, D. Pedro, irmão de el-rei, assolava a Galiza, quebrando improvisadas resistências, D. Afonso IV ia com gente numerosa pôr cerco a Badajoz e de lá ordenava, ou ele próprio fazia, excursões assoladoras por terras castelhanas (1336). De Lisboa partia Gonçalo Camelo com vinte galés, guarnecidas de dois mil homens, para ir talar as costas meridionais perto da foz do Guadiana, onde após algumas depredações foram os portugueses acossados com vigor junto ao esteiro de Lepe (8 de Setembro). Ao norte, forças castelhanas vingavam a incursão do conde de Barcelos, penetrando em Portugal, na mesma fúria assoladora até à cidade do Porto, até que foram corridos por mil e quatrocentos homens que reuniram o bispo D. Vasco Martins, o arcebispo de Braga, D. Gonçalo Pereira, e o mestre da Ordem de Cristo, D. Frei Estêvão Gonçalves. Pouco depois de voltarem ao Tejo as galés de Gonçalo Camelo saiu com grande número de velas o almirante Manuel Pessanha, que foi atacar as costas da Galiza. Pagou pouco depois este atrevimento com um sério revés que sofreu junto ao cabo de S. Vicente. Por muito tempo se repetiram as correrias de lado a lado na fronteira, até que no Estio de 1338 chegaram à Península duas altas personagens encarregadas de pacificar os príncipes. A este efeito enviava o papa Bento XII, como legado, a Bernardo, bispo de Rodes, e de missão semelhante encarregara Carlos VII, rei de França, a João, bispo remense. Ao cabo de morosas negociações, suspenderam-se as hostilidades e assinou-se finalmente a paz em Sevilha, em 10 de Julho de 1339, ou de 1340, como dizem historiadores espanhóis e o nosso Duarte Nunes de Leão. Entre outras cláusulas estipulou-se que D. Constança seria conduzida a Portugal, como, quando e por onde seu pai quisesse, e que el-rei de Castela se obrigava a tratar a rainha sua mulher como devia.

Lutas entre cristãos e muçulmanos – Batalha do Salado Para as pazes firmadas em Sevilha muito contribuíram os rumores, que corriam desde a Primavera de 1339, de que o rei de Marrocos tratava de acumular tropas africanas em Algeciras e Gibraltar, no intento de invadir os estados cristãos da Península. Afonso XI, já reconciliado com alguns dos seus magnates, concertou-se com o rei de Aragão para repelirem o inimigo comum. Pediram o auxílio do pontífice, que além de conceder indulgência a todos que pelejassem pela bandeira da cruz mandou pôr à disposição dos monarcas a décima dos rendimentos eclesiásticos nos respectivos estados. Ao passo que em terra os Castelhanos infligiram reveses aos Muçulmanos, não correram tão prósperas as coisas do mar. Ao estreito de Gibraltar foram enviadas uma esquadra aragonesa e outra castelhana, com a missão de impedirem o desembarque de infiéis nas costas da Península. Em breve os Aragoneses, perdido o chefe em combate por ocasião de um desembarque, retiraram-se com os navios para a Catalunha (Fevereiro de 1340). Dois meses depois encontrava-se a fraca armada castelhana em presença de duzentas e cinquenta velas muçulmanas, com numerosas tropas de desembarque. Era de boa prudência evitar o combate em tanta desproporção de forças; porém, o comandante castelhano, acusado em falsos rumores de fraqueza e talvez traição, decidiu sacrificar tudo à defesa da sua honra: acometeu o inimigo com grande valor; porém, o desenlace foi a derrota da esquadra castelhana e nem outro podia ser (4 de Abril de 1340). Naquela dolorosa circunstância, e a propósito do desastre, escreveu Bento XII a el-rei de Castela uma carta que devia escaldar-lhe a consciência, quando pouco antes se dera novo e escandaloso incidente por causa dos amores com D. Leonor de Gusmão. «Examina a tua consciência», dizia o pontífice, «e vê se ela te não fala dessa concubina a quem há tanto tempo estás demasiadamente apegado, em detrimento da tua salvação e da tua glória… Combate a tua paixão, faze a ti próprio guerra viva e incessante», etc. Não sucumbiu Afonso XI ao infortúnio. Pediu novamente o auxílio do papa, contratou com a República de Génova o aluguer de navios, reuniu quantos pôde encontrar nas costas do seu reino e conseguiu que D. Afonso IV lhe enviasse uma armada de socorro sob o comando de Manuel Pessanha. Todos estes navios se aproximaram de Cádis, não passando avante por se julgar temeridade. Entretanto os Muçulmanos tinham juntado na Península forças numerosas, que teriam feito estragos enormes se avançassem pelos estados cristãos, em vez de perderem tempo no cerco de Tarifa. El-rei de Castela decidiu ir em socorro desta praça, e como todas as forças eram pequenas para se baterem com tão poderoso inimigo, enviou a rainha D. Maria sua esposa a Portugal a pedir o auxílio do pai. Apressadamente se pôs D. Afonso IV a caminho de Sevilha com mil lanças, enquanto nas diversas províncias se organizavam companhias de tropa que deviam marchar em troços na mesma direcção, e na verdade se foram juntar em Sevilha. Entre os que acompanhavam el-rei contavam-se o arcebispo de Braga, D. Gonçalo Pereira; os mestres das Ordens Militares do Crato, Sant’Iago, Cristo e Avis; e muitos nobres, como: D. Rodrigo Álvares Pereira, filho do prior do Crato D. Álvaro Gonçalves Pereira; Lopo Fernandes Pacheco, senhor de Ferreira; Gonçalo Vasques de Moura e D. Gonçalo Correia de Azevedo, neto do grande D. Paio Peres Correia, que foi mestre de Sant’Iago. No dia 20 de Outubro partiram de Sevilha os dois Afonsos, em marcha lenta para irem fazendo provisão de mantimentos e engrossando as hostes com novas forças que chegavam. Os Mouros, vendo aproximar-se os cristãos, levantaram o cerco e prepararam-se para batalha campal. As tropas mauritanas e as granadinas dispuseram-se separadamente em duas elevações próximas, o que bem se distinguia pela diferença das cores e insígnias das respectivas bandeiras. Cada uma das hostes ocupava a sua elevação e desenvolvia-se na vertente voltada aos cristãos. À frente servia a ambas de trincheira o rio Salado, que corria no fundo do vale. Na vertente oposta, ao fundo da qual se estendia o mar, tinham as bagagens e gente de conserva.

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