CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 48 -por José Brandão

O país vive dias amargos. A todo o momento surgem novos confrontos com as forças policiais. D. Carlos escreve a João Franco e incita-o: «seja como for e suceda o que suceder, temos que caminhar para diante, ainda que a luta seja rude e áspera (e espero-a) porque aqui mais do que nunca, parar é morrer, e eu não quero morrer assim… nem tu!»

«Sem luta não há prazer em vencer, e a vitória sem combate, e combate sério, nunca é uma vitória duradoura», declara o monarca.

A contrastar com esta determinação estão as dúvidas que se ouvem por todo o lado.

Até mesmo os grandes partidos do constitucionalismo monárquico procuram manter-se a uma certa distância de João Franco.

Os progressistas de Luciano de Castro e José de Alpoim aconselham reacção enérgica contra a Ditadura, enquanto, por seu turno, os regeneradores marcam uma posição de franca hostilidade ao Governo, com o seu chefe, Hintze Ribeiro, a falar nestes termos:

«Ninguém é mais monárquico do que eu, mas quero a Monarquia aliada à Liberdade e não ao Absolutismo. É assim que eu sou monárquico. Mais um ano deste Governo e Portugal tornar-se-á republicano.»

Mas a violência franquista não estava para perder sem-cerimónia a sua brutalidade.

No dia 31 de Janeiro, João Franco consegue convencer o rei a assinar um decreto que agrava grandemente a situação dos oposicionistas detidos nos cárceres da ditadura.

Era o tal decreto que, no fundo, habilitava o Governo a eliminar todos os discordantes da sua política e é a última recordação que o monarca vai deixar ao povo.

Ao assiná-lo, parece que ainda murmurou:

«Assino a minha sentença de morte.»

Na verdade, na tarde do dia seguinte, D. Carlos caía às balas de dois carbonários que, no dizer de vários depoentes, em princípio, «apenas» se dispunham a eliminar o ditador João Franco.

A consumação do regicídio foi um acto descaradamente público enquanto perpetuado por homens a cara descoberta. Porém, nunca suficientemente esclarecido ao ponto de se saber muito mais do que aquilo que todos viram no Terreiro de Paço.

Falou-se sempre de outros cúmplices que, inclusive, estiveram envolvidos directamente no atentado do Terreiro do Paço.

Um grupo de que faziam parte além de Buíça e Costa, um tal José Nunes e outros, teria reunido na Quinta do Xexé, aos Olivais, e ali, na madrugada de 1 de Fevereiro, combinam o plano que os encaminha desde cedo para o local onde tudo irá acontecer.

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Manuel José dos Reis da Silva Buíça, de 32 anos, transmontano natural de Bouçais, professor num colégio privado, antigo sargento do Exército medalhado como atirador de 1ª classe e Alfredo Luís da Costa, de 23 anos, alentejano natural de Casével, caixeiro, antigo empregado dos Grandes Armazéns do Chiado, são executores que desaparecem tão rápido como tinham aparecido.

«O rei morreu na tarde do 1.º de Fevereiro, no Terreiro do Paço. A Monarquia morreu essa noite, no Paço das Necessidades», escreve alguns meses depois um jornal republicano.

Penúltimo e trigésimo segundo soberano de Portugal, D. Carlos foi uma figura histórica incontornável, tendo reinado num dos mais conturbados períodos da vida política nacional.» *

* José Brandão, in D. Carlos I, www.vidaslusofonas.pt

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