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NEGROS CALÇADOS – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

Em 1952, no Café Chiado, em Lisboa, pergunto ao Mário Pinto de Andrade por que não fez curso superior em Angola e ele responde-me que em Angola não há cursos superiores, por isso veio para Portugal.

 – Mas isso, ó Mário, deve custar um dinheirão…

– Não te esqueças que eu sou descendente de negros calçados.

 Fico atordoado com a resposta.

 – De um lado pés descalços, do outro negros calçados? É isso?

– Sim, Fernando, é mais ou menos isso. Mas calçados, antes de tudo, porque faziam o comércio de longa distância, desde o Ngolungo Alto até Luanda. Os Andrade acabaram por ir viver em Luanda, embora mantivessem sempre o comércio com Ngolungo Alto. Assim capitalizámos recursos, não só económicos, mas também culturais. Somos os primeiros negros a ser alfabetizados pelos padres católicos. A propósito: o meu irmão Joaquim já decidiu estudar para padre. Sim, Fernando, somos uma burguesia mas também somos os representantes do primeiro nativismo angolano.

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