
Karl e Friedrich começaram por proceder a um cuidadoso levantamento das formas de repressão social usadas desde o dealbar da História. Sem o maniqueísmo acientífico que, ainda na actualidade, inquina a limpidez das análises, destacaram o papel revolucionário da burguesia na destruição do poder feudal da nobreza e na limitação da influência da Igreja, mas identificam-na como a classe dominante, repressiva – o inimigo, por assim dizer. A tirania dos barões que, pelo nascimento, tinham direitos sobre os servos, foi substituído pela competitividade, pela prevalência dos mais aptos. Um aptidão em que um dos quesitos fundamentais é a falta de escrúpulos – usando um velho cliché – quem rouba um pão é um gatuno – quem numa especulação financeira ganha milhões, mesmo que ponha na miséria numerosos seres humanos, é um hábil negociante. Os trabalhadores, mais do que os servos, são peças descartáveis.
.Quando o Manifesto foi editado, a procissão capitalista ainda nem sequer ao adro chegara. Pelo que é notável a capacidade de antecipação de Marx e de Engels, capazes de a partir dos dados que possuíam foram capazes de encontrar as linhas de fuga e traçar as perspectivas do capitalismo. Desde a aceleração da produção que uma exponencial evolução da tecnologia iria permitir, até à criação de uma cultura de consumo intensivo que permita escoar a crescente produção.
A luta do proletariado contra a burguesia é, segundo os dois autores do Manifesto uma consequência, pura e simples, da sua existência. Uma luta em que os proletários nada terão a perder (a não ser as suas cadeias…) A condição única para desencadear a luta é a de que os proletários tomem consciência da sua força. E, ponto capital da tese – o internacionalismo proletário – o nacionalismo põe trabalhadores a lutar contra trabalhadores em defesa dos interesses das burguesias. Não vamos referir todos os aspectos deste documento, apenas queremos lembrar que, muita coisa mudou nestes 165 anos. O proletariado de meados do século XIX, terá deixado de existir. Mas no essencial, a exploração capitalista mantém-se, intensificou-se – ganhou uma expressão que Marx e Engels não podiam prever. Internacionalizou-se antes de que os trabalhadores o tenham conseguido fazer. Parece, no entanto, ser um modelo esgotado. Adivinha-se uma mudança de paradigma. Os países emergentes podem ter um papel fulcral nessa mudança. E a ideia de uma China transposta para a escala mundial, não é tranquilizadora. Na China, as linhas de força do Manifesto foram assumidas através da filtragem pela tradição milenar asiática – o que em Marx e Engels era a luz radiosa da libertação dos produtores do jugo dos negociantes, transformou-se numa penumbra onde, sob o manto diáfano de uma nomenclatura comunista, se ocultam as formas da servidão e da exploração intensiva do trabalho de milhões de seres humanos em benefício de minorias. O contrário do que o Manifesto defendia.

