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CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 28 – por José Brandão

D. SEBASTIÃO – O DESEJADO

 (reinou de 1557 a 1578)

«Todo o século fora açoutado por epidemias: em 1506, em 1530; e agora ainda, nas vésperas da jornada de África, eram vivas as lembranças da peste grande de 1569. Em Julho e Agosto desse ano morreriam setecentas pessoas por dia em Lisboa, e já não havia onde enterrar os cadáveres. Abriam-se valas, onde se lançavam aos cinquenta e mais de cada vez. Era uma doença fulminante; e sem dúvida alguma um castigo do céu, pelos pecados dos cristãos-novos; quando não era o malefício dos bruxos, vendidos a Satanás. Repentinamente os homens caíam mortos, nas ruas. Topavam-se cadáveres a cada instante. Tinham-se sagrado campo e olivais para cemitérios, porque, nas igrejas e nos adros, as covas estavam atulhadas, e havia exalações podres. Os grilhetas das galés serviam de coveiros por faltarem braços para tanto cadáver. Enterravam-se os mortos nas calçadas, e nas próprias lojas das casas, por não haver quem os levasse ao cemitério. Ao longo das ruas, viam-se fiadas de embrulhos brancos de cadáveres em lençóis. O mau cheiro dos corpos insepultos, das covas à flor da terra, mal fechadas, era insuportável; e, ao passar em frente das portas cerradas das casas, ouviam-se ruídos: eram os ratos e doninhas cevando-se nas carnes putrefactas da família que caíra toda. Morreu da peste grande mais de um terço da gente de Lisboa: quarenta mil pessoas. A erva crescia em grande altura na Rua Nova, onde os maraus jogavam a bola.

E se mais gente não morreu foi porque um boato horroroso circulara na Primavera, afugentando grande parte da população da cidade. Corria e todos acreditavam, que em Junho, no dia 10, os montes do Carmo e do Castelo, unidos por um terramoto, iriam cair sobre Almada, entulhando o Tejo, arrasando Lisboa. No dia 9 a cidade vazou-se, levando todas as roupas e alfaias em carradas, às trouxas, para os arrabaldes. O dia 10 passou; mas, como a peste já grassava, só voltou à capital quem absolutamente não pôde residir fora.

De tal modo começava o reinado de D. Sebastião, que no ano anterior (1568) tomara posse do governo. Nesse próprio ano se reduzira a um terço o valor da moeda de cobre — o patacão a três réis, as moedas a real e meio e um real. Era uma medida cruel, mas indispensável, porque o inglês, que levara toda a prata e todo o ouro, mandava para cá, nas barricas de farinha e nas pipas de pregos, o cobre fraco, português, cunhado por ele. O dinheiro da Índia tinha passado por Portugal como trigo por uma ciranda: fora-se o grão, ficavam o joio e o lixo da eira. Os figurões, sabendo de véspera a lei, pagaram tudo; e o pobre povo, pasmado, achou-se com dois terços de menos. Enforcou-se muita gente, ao ver-se perdida. No ano seguinte veio a peste: dizia-se ser o castigo do roubo infame da Semana Santa de 68.

A dureza das infelicidades da pátria levava os espíritos ao estado de uma loucura febril, de uma superstição idiota, de um furor de devassidão, de medo e de extravagância. Tudo se acreditava possível, com o desvairamento do delírio. Como outrora, nas vésperas do ano mil, todos queriam gozar à farta o pouco tempo que o mundo tinha a durar. Portugal era uma nação de loucos perdidos, e no moço rei encarnara toda a loucura do povo. Passados os tempos do misticismo feroz e devoto de D. João III, a religião tornara-se um puro medo, o culto um fetichismo, a vida uma orgia. O crescendo da decomposição aproximava-se do acume, e esse terror do abraço inconsciente do grande terramoto que ia subverter a nação inteira. A loucura positiva do rei humanizava o estado moral da nação. Um destino comum arrastava a ambos para o fundo de uma voragem; e nação e rei, nas bordas do precipício, dançavam alegres como uma coreia de espectros. O sabbath, tantas vezes queimado nas fogueiras da Inquisição, era a tragédia em que, por fim, todos se achavam actores.

A imaginação do povo tinha criado em volta do berço do rei uma nuvem de milagres; e a lenda fantástica que ela lhe formou depois de morto trazia origens de antigos casos maravilhosos. Quando fora do casamento do príncipe D. João — o pai do rei, que não chegou a reinar — viram as gentes de Lisboa no céu, por cima das torres da Sé, noites seguidas, um fogo avermelhado, em forma de ataúde. Contavam-se, depois, as singulares aparições no paço de Xabregas. A princesa estava no leito, D. Sebastião ia nascer; e da sombra da câmara de altos tectos destacou-se a figura de uma dona, vestida de negro… Trazia mangas de ponta e touca larga; vinha envolvida em crepes. Não falava, mas seguia, oscilando e crescendo para o leito, com um estalido de ossos nus que se tocam. Parou, e, como quem despede um beijo com os dedos, soltou um sopro. Uma visão e um estertor de vida que foge, seriam o rei ainda no ventre, a nação na beira da cova. […]

Em Almeirim, na coutada, caçava em permanência, domando os cavalos bravios, expondo-se a todos os perigos dos saltos atrevidos, gabando-se da sua destreza e da sua audácia. Outras vezes arremetia num barco aos temporais do Tejo; e por toda a parte, como um Quixote, fazia fala de uma temeridade que a loucura do seu génio confundia com a coragem. Quando tinha dezasseis anos, gastava três horas por dia a correr lanças, sozinho; e com a cabeça repleta das tradições cavalheirescas, memorando a vida do grande Condestável, queria fazer voto de castidade, para ir puro à sua empresa. «De natureza feroz e robusta, de espírito veemente e levantado, e de coração invencível e determinado, não cuidava senão em guerras e em famosas conquistas e militares empresas. E nem é possível senão que um dia imaginava sujeitar a si toda a Berbéria: outro arrasar os muros de Constantinopla; logo fazer-se senhor do califado do Egipto, e trazer à sua obediência a veneranda Palestina». Era um rapaz antes baixo do que alto, ruivo, de olhos azuis, com a tez branca pintada um tanto de bexigas, e o beiço inferior grosso dos Habsburgos, cujo sangue tinha da mãe. Inquieto, nervoso, doentio, era um desequilibrado. Tinha todo o lado direito maior do que o esquerdo; a mão, o braço, o flanco, a perna e o pé, com um dedo a mais. As pernas eram excessivamente longas para as dimensões do tronco. Tinha um tal horror a mulheres que corriam versões, a ponto de Filipe II, seu tio, lhe mandar o dr. Almazan, a ver se o curava. Daí vinha o dizer-se que a castidade lhe era fácil. Vingava-se na devoção; e dos padres que ouvia, dizia um emissário francês a Catarina de Médicis: «São dois hipócritas perigosos, mais sequiosos de vingança do que de religião». Os negócios do Estado eram-lhe um aborrecimento; e na sua nobreza ingénita, olhava com horror as intrigas e conselhos da política. Seus validos eram os moços, temerários e doidos como ele. Vagamente percebia que a nação, desesperada, pedia um messias, e tinha para si talhado o papel de salvador.

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