CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 22 – por José Brandão

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O cadáver de D. Pedro

Todo o dia da batalha o corpo de D. Pedro esteve abandonado no campo. Á noite levaram-no homens vis para uma pobre casa, onde, entre outros cadáveres, ficou três dias «sem candea, nem cobertura, nem oraçam, que por sua alma pubryca se dissesse nem ousasse de dizer, o que foi grande pasmo e vituperio da Casa Real».

A tragédia causou impressão em diversas cortes da Europa. Os documentos que conhecemos não bastam para julgar quem primeiro se deu pressa em transmitir a notícia com pormenores: se foi a duquesa de Borgonha, D. Isabel, para vingar o irmão, desacreditando o sobrinho, ou se foi este, para prevenir censuras, explicando os antecedentes da tragédia.

Efectivamente, D. Afonso V enviou mensageiros ao Papa e a alguns príncipes cristãos, com instruções redigidas em ódio à memória de seu tio; porém, as mensagens não lograram o êxito calculado, porque as respostas «nom vieram conformes a sua tençam, antes todos sem exceiçam, com apontamentos de muytos louvores e grandes merecimentos do Yfante, enviaram acerca de sua morte muyto reprender ElRey, avisando pryncipalmente as paixões partyculares, e enganos dos de seu conselho, escusando em alguma maneira sua pouca e nam madura ydade, pois tynha rezam de se reger e governar per elles.»

A duquesa de Borgonha quis de todos os modos honrar a memória de seu infeliz irmão e dar amparo aos sobrinhos desvalidos. Mandou como embaixador a Portugal o deão de Vergi, encarregado de dar as razões da inocência de D. Pedro e de reclamar para o seu cadáver a honrada sepultura que o pai lhe destinara no Mosteiro da Batalha.

Pedia ao mesmo tempo que se não negasse amparo à viúva, filhos e criados do infante.

Ao Papa queixou-se a duquesa de que seu irmão fora morto desumanamente e que o seu cadáver ficara três dias sobre a terra, exposto às aves de rapina, e depois, para cúmulo da crueldade, o transportaram a lugar ignorado dos parentes. Assim, nem ela podia mandar celebrar por sua alma decentes exéquias, nem sepultá-lo em lugar honroso, como merecia tamanho príncipe, não só por sua estirpe régia como também pelas virtudes que o adornavam.

O cadáver fora transportado à igreja de Alverca, e dali o levaram ao Castelo de Abrantes, com receio de que o roubassem e o levassem para a Borgonha.

Ao mesmo tempo tratava D. Isabel dos sobrinhos. D. Jaime, que fora preso em Alfarrobeira, recuperada a liberdade pouco depois, foi para a Borgonha, onde sua tia lhe deu uma pensão e lhe pôs casa e estado. Cerca de três anos depois foi para Roma. Veio a ser cardeal e arcebispo de Lisboa, mas não voltou ao reino. D. Isabel e D. João passaram a Borgonha, em 1451. D. Pedro, que se retirara de Portugal e regressara em 1453, morreu conde de Barcelona. D. João e D. Beatriz foram também para Borgonha, e D. Filipa, que andava na casa da rainha sua irmã, desde os sete anos, acabou religiosa no Mosteiro de Odivelas.

Havia outra vítima de Alfarrobeira, a quem alancearam as dores mais amargas: era a rainha, privada do carinho e amparo do pai pela tragédia sangrenta, sem ao menos poder desabafar livremente a sua dor perante o marido. Nem de sua própria sorte estaria segura, quando os inimigos de seu pai, receando-lhe a influência no ânimo de el-rei, a este aconselhavam que dela se apartasse como inimiga e suspeita, «e ouvesse outra molher, ca pera Deos e pera o mundo o podia e devia fazer». Não faltaram teólogos e letrados que justificassem tal conselho, mas reprovou-o rei, a quem não minguavam sentimentos bons e generosos. […]

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