Episódios da infância de D. Afonso VI
Estes escândalos feriam profundamente o coração do conde de Odemira, aio do monarca. Um dia, encontrando-o no meio daquelas infames companhias, o conde decidiu livrá-lo delas a todo o custo: expulsou do pátio a vil canalha e a António de Conti, e a este proibiu que voltasse lá. Com este procedimento se amofinou tanto D. Afonso que declarou não haver de comer nem tomar lição enquanto Conti não fosse restituído livremente à sua presença.
Como crescessem os escandalosos desvarios de el-rei, e já passasse o jogo da pedrada do pátio da capela para o terreiro, determinou a rainha dar casa ao filho, esperando que assim tomasse algum termo de gravidade. Passados, porém, os primeiros momentos de esperança, tudo voltou ao anterior estado. António de Conti gozava tal valimento que até no paço encontrava quem o lisonjeasse. El-rei expunha-se a todos os perigos e indignidades. Provocava e agredia pessoas, que, não o conhecendo, respondiam à insolência como ela merecia, e assim de uma vez foi el-rei ferido. De noite saía pela porta do jardim com António de Conti, João de Conti e outras pessoas de baixa condição. Iam todos armados como para uma batalha, e assim corriam as ruas da cidade, provocando desordens, praticando insolências nas casas das prostitutas.
D. Luísa, amargurada com tais desmandos, decidiu, com os grandes da corte, apartar da pessoa de el-rei aqueles que lhe eram funestos, prendendo-os enquanto D. Afonso estivesse com a rainha no despacho, e degradando-os para fora do reino. Na cabeça do rol figurava António de Conti, que já ocupava uma casa junto da câmara de el-rei.
A 20 de Junho de 1662 a rainha, para facilitar a execução do intento, entrou com el-rei para o despacho. Logo o duque do Cadaval foi com outros procurar António de Conti; este fechara-se por dentro, mas ameaçado de lhe arrombarem a porta e tirarem-lhe a vida, abriu-a. Quase ao mesmo tempo eram presos outros e levados todos a um navio que ia para o Brasil e se fez logo à vela.
Informada a rainha de que tudo estava executado, mandou entrar na sala do despacho, onde estava com el-rei, aos grandes fidalgos, tribunais, senado da câmara e Casa dos Vinte e Quatro. Na presença de todos leu o secretário de Estado um papel em que se declarava que a rainha se encarregara da regência para satisfazer a vontade de el-rei seu marido e pelo amor que tinha a el-rei seu filho; relatava-se quanto a regente fizera até àquele tempo, «e que temendo o que podia suceder em grande prejuízo da monarquia, mandara chamar, a todos os que estavam presentes, para que pedissem a el-rei que, lembrando-se de si e do reino, se empregasse com cuidado e desvelo nos negócios públicos gastando o tempo em ocupações dignas de sua real pessoa, para poder governar por si mesmo, não expondo a sua vida, como por tantas vezes havia feito havendo introduzido no paço, e junto à sua real pessoa, pessoas de inferior qualidade, e de tais costumes, conselhos e artes, que por estabelecerem a sua fortuna haviam semeado dissensões entre os grandes e feito na corte outras perturbações prejudiciais que a todos eram notórias, as quais talvez, se el-rei as soubera, as castigaria como mereciam».
El-rei não percebera nada, diz António Caetano de Sousa, e depois perguntou ao monteiro-mor se aquele ajuntamento foram Cortes. Esta observação caracteriza e define o estado de espírito de D. Afonso VI, que ia perfazer dezanove anos de idade.
Quando o monteiro-mor explicou a D. Afonso VI a causa e o significado do que se passara na sala do despacho, el-rei entrou em cólera e perguntou onde estava António de Conti, pois queria ir buscá-lo. Depois que sossegou um pouco, instigado talvez por conselhos que recebeu, retirou-se para a quinta de Alcântara com o conde de Castelo Melhor, o conde de Atouguia e Sebastião César de Meneses. Disto se depreendeu que el-rei intentava tomar posse do governo.
No dia 21, à noite, a rainha D. Luísa escreveu a seu filho uma carta, a censurar-lhe suavemente o procedimento, e dizendo-lhe que se ele queria assumir o governo, como parecia por seu procedimento, ela ainda muito mais desejava entregar-lho; que voltasse para o paço, e em bom acordo se combinariam os termos da entrega. Respondeu D. Afonso que, atendendo aos apuros do reino e compadecido dos trabalhos de sua mãe, se resolvera a aliviá-la, tomando o governo, pois já excedia muito a idade que as leis marcavam como limite da tutela. Trocadas mais algumas cartas sem resultado, fez a rainha solene entrega do governo em 23 de Junho de 1662.
Logo foram desterrados para lugares remotos o duque do Cadaval e outras personagens da corte. Pelo contrário, António de Conti, João de Conti e outros companheiros de estúrdia de D. Afonso VI foram restituídos a Lisboa e ao convívio do paço!
No meio de tantas desgraças e tristezas foi o governo do reino felizmente entregue ao conde de Castelo Melhor, que da sua inteligência e actividade deu as melhores provas. Por carta de 12 de Julho de 1662, nomeou-o el-rei escrivão da puridade, com absoluto poder de governar o reino.
A rainha D. Luísa, com o coração alanceado de tantos desgostos, saiu do paço, com grande aparato, a 17 de Março de 1663, acompanhada de el-rei D. Afonso, do infante D. Pedro e de toda a corte, para abraçar a vida religiosa no mosteiro de religiosas descalças de Santo Agostinho (grilas). Ali faleceu a 27 de Fevereiro de 1666.
