CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 33 – por José Brandão

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Episódios da infância de D. Afonso VI

Estes escândalos feriam profundamente o coração do conde de Odemira, aio do monarca. Um dia, encontrando-o no meio daquelas infames companhias, o conde decidiu livrá-lo delas a todo o custo: expulsou do pátio a vil canalha e a António de Conti, e a este proibiu que voltasse lá. Com este procedimento se amofinou tanto D. Afonso que declarou não haver de comer nem tomar lição enquanto Conti não fosse restituído livremente à sua presença.

Como crescessem os escandalosos desvarios de el-rei, e já passasse o jogo da pedrada do pátio da capela para o terreiro, determinou a rainha dar casa ao filho, esperando que assim tomasse algum termo de gravidade. Passados, porém, os primeiros momentos de esperança, tudo voltou ao anterior estado. António de Conti gozava tal valimento que até no paço encontrava quem o lisonjeasse. El-rei expunha-se a todos os perigos e indignidades. Provocava e agredia pessoas, que, não o conhecendo, respondiam à insolência como ela merecia, e assim de uma vez foi el-rei ferido. De noite saía pela porta do jardim com António de Conti, João de Conti e outras pessoas de baixa condição. Iam todos armados como para uma batalha, e assim corriam as ruas da cidade, provocando desordens, praticando insolências nas casas das prostitutas.

D. Luísa, amargurada com tais desmandos, decidiu, com os grandes da corte, apartar da pessoa de el-rei aqueles que lhe eram funestos, prendendo-os enquanto D. Afonso estivesse com a rainha no despacho, e degradando-os para fora do reino. Na cabeça do rol figurava António de Conti, que já ocupava uma casa junto da câmara de el-rei.

A 20 de Junho de 1662 a rainha, para facilitar a execução do intento, entrou com el-rei para o despacho. Logo o duque do Cadaval foi com outros procurar António de Conti; este fechara-se por dentro, mas ameaçado de lhe arrombarem a porta e tirarem-lhe a vida, abriu-a. Quase ao mesmo tempo eram presos outros e levados todos a um navio que ia para o Brasil e se fez logo à vela.

Informada a rainha de que tudo estava executado, mandou entrar na sala do despacho, onde estava com el-rei, aos grandes fidalgos, tribunais, senado da câmara e Casa dos Vinte e Quatro. Na presença de todos leu o secretário de Estado um papel em que se declarava que a rainha se encarregara da regência para satisfazer a vontade de el-rei seu marido e pelo amor que tinha a el-rei seu filho; relatava-se quanto a regente fizera até àquele tempo, «e que temendo o que podia suceder em grande prejuízo da monarquia, mandara chamar, a todos os que estavam presentes, para que pedissem a el-rei que, lembrando-se de si e do reino, se empregasse com cuidado e desvelo nos negócios públicos gastando o tempo em ocupações dignas de sua real pessoa, para poder governar por si mesmo, não expondo a sua vida, como por tantas vezes havia feito havendo introduzido no paço, e junto à sua real pessoa, pessoas de inferior qualidade, e de tais costumes, conselhos e artes, que por estabelecerem a sua fortuna haviam semeado dissensões entre os grandes e feito na corte outras perturbações prejudiciais que a todos eram notórias, as quais talvez, se el-rei as soubera, as castigaria como mereciam».

El-rei não percebera nada, diz António Caetano de Sousa, e depois perguntou ao monteiro-mor se aquele ajuntamento foram Cortes. Esta observação caracteriza e define o estado de espírito de D. Afonso VI, que ia perfazer dezanove anos de idade.

Quando o monteiro-mor explicou a D. Afonso VI a causa e o significado do que se passara na sala do despacho, el-rei entrou em cólera e perguntou onde estava António de Conti, pois queria ir buscá-lo. Depois que sossegou um pouco, instigado talvez por conselhos que recebeu, retirou-se para a quinta de Alcântara com o conde de Castelo Melhor, o conde de Atouguia e Sebastião César de Meneses. Disto se depreendeu que el-rei intentava tomar posse do governo.

No dia 21, à noite, a rainha D. Luísa escreveu a seu filho uma carta, a censurar-lhe suavemente o procedimento, e dizendo-lhe que se ele queria assumir o governo, como parecia por seu procedimento, ela ainda muito mais desejava entregar-lho; que voltasse para o paço, e em bom acordo se combinariam os termos da entrega. Respondeu D. Afonso que, atendendo aos apuros do reino e compadecido dos trabalhos de sua mãe, se resolvera a aliviá-la, tomando o governo, pois já excedia muito a idade que as leis marcavam como limite da tutela. Trocadas mais algumas cartas sem resultado, fez a rainha solene entrega do governo em 23 de Junho de 1662.

Logo foram desterrados para lugares remotos o duque do Cadaval e outras personagens da corte. Pelo contrário, António de Conti, João de Conti e outros companheiros de estúrdia de D. Afonso VI foram restituídos a Lisboa e ao convívio do paço!

No meio de tantas desgraças e tristezas foi o governo do reino felizmente entregue ao conde de Castelo Melhor, que da sua inteligência e actividade deu as melhores provas. Por carta de 12 de Julho de 1662, nomeou-o el-rei escrivão da puridade, com absoluto poder de governar o reino.

A rainha D. Luísa, com o coração alanceado de tantos desgostos, saiu do paço, com grande aparato, a 17 de Março de 1663, acompanhada de el-rei D. Afonso, do infante D. Pedro e de toda a corte, para abraçar a vida religiosa no mosteiro de religiosas descalças de Santo Agostinho (grilas). Ali faleceu a 27 de Fevereiro de 1666.

Quando a infanta D. Catarina chegou à idade de poder matrimoniar-se, procurou a rainha D. Luísa, sua mãe, dar-lhe esposo que também fosse de interesse ao reino.

Tratou-se do casamento com Luís XIV, quando Ana de Áustria dizia preparar o consórcio de seu filho com várias princesas, para apressar a paz com a Espanha e casá-lo com a infanta D. Maria Teresa. Finalmente, por diligências do embaixador em Londres, Francisco de Melo, depois conde da Ponte, ajustou-se o casamento de D. Catarina com Carlos II de Inglaterra, pelo tratado de 23 de Junho de 1661, no qual, além das cláusulas relativas ao casamento, havia outras em que se firmava um tratado de aliança entre os dois países.

El-rei de Portugal obrigou-se a dotar a infanta sua irmã com dois milhões de cruzados. Quando a rainha de Inglaterra, garantia-se a D. Catarina o livre exercício da religião católica.

El-rei de Portugal cedia à Inglaterra a cidade e fortaleza de Tânger, com todos os seus direitos. Em beneficio do comércio inglês na Índia, e para que el-rei da Grã-Bretanha estivesse em condições de melhor defender os vassalos portugueses naquelas paragens, cedia-lhe el-rei de Portugal o porto e ilha de Bombaim com os seus territórios. Concediam-se aos Ingleses, para exercício do comércio, nas cidades de Goa, Cochim e Diu, e bem assim na Baía, Pernambuco e Rio de Janeiro, os mesmos privilégios de que gozavam os portugueses. Cedia também el-rei de Portugal à Grã-Bretanha as praças e fortalezas que os Ingleses viessem a conquistar aos Holandeses e que tivessem pertencido a Portugal, e se a ilha de Ceilão voltasse por qualquer modo ao poder de el-rei de Portugal, cederia este a el-rei de Inglaterra a praça e porto de Gale e conservaria para si a praça e porto de Columbo; porém, o trato da canela seria repartido igualmente entre Ingleses e Portugueses. O mesmo se observaria se a ilha de Ceilão viesse a cair em poder da Grã-Bretanha.

Em troca de todas estas concessões, «e em razão também do mesmo dote, que tantas vantagens faz a todos os que antes se deram em algum tempo com filha alguma de Portugal», comprometia-se a Inglaterra a defender os interesses de Portugal e de todos os seus domínios, tanto por mar, como por terra, e à sua custa enviaria a Portugal dois regimentos de quinhentos cavalos cada um e dois terços de infantaria de mil homens cada um, preenchendo sempre o mesmo número à medida que ele fosse diminuindo. Todas as vezes que Portugal fosse invadido enviar-lhe-ia a Inglaterra dez boas naus de guerra, e todas as vezes que fosse infestado de piratas mandaria três ou quatro naus de guerra, convenientemente guarnecidas de marinheiros e com mantimentos para oito meses. Se Portugal se encontrasse em maior aperto, também a Inglaterra mandaria que concorressem a socorrê-lo todos os navios ingleses que estivessem no Mediterrâneo ou no porto de Tânger.

Partiu D. Catarina de Lisboa a 25 de Abril de 1662, chegou a Portsmouth a 24 de Maio e ali se consorciou no dia 31.

Foi pouco feliz a nova rainha de Inglaterra, amargurada pelas infidelidades do marido, pelo ódio que lhe votavam os protestantes e pelas agitações político-religiosas. A 11 de Fevereiro de 1685 faleceu Carlos II; anos depois resolveu D. Catarina regressar a Portugal. Viajou por França e Espanha, entrou no reino por Almeida e chegou a Lisboa a 20 de Janeiro de 1693.

Faleceu a 31 de Dezembro de 1705. […]

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