D. AFONSO VI (reinou de 1656 a 1683)
D. Afonso VI nasceu em Lisboa a 12 de Agosto de 1643. Débil mental, D. Afonso folgava em tratar com pessoas de baixa condição, e em se entregar a divertimentos indignos da sua condição. Às horas da sesta ia el-rei entreter-se nos corredores do paço, cujas janelas davam para o pátio da capela real ver os rapazes que se juntavam ali, jogando à pedrada. Este pátio era cercado de arcadas, onde estavam estabelecidos mercadores com as suas tendas. Um destes, o genovês António Conti, astucioso como um verdadeiro italiano, soube insinuar-se nas boas graças de el-rei, aplaudindo os rapazes que D. Afonso protegia nas contendas que se travavam.
D. Afonso descia ao pátio para conversar com o genovês, que procurava tornar-se agradável, oferecendo-lhe bugigangas do seu comércio, que tentavam o gosto pouco apurado do jovem monarca. António Conti foi-se insinuando no ânimo de D. Afonso, que este chegou a introduzi-lo no palácio. Os preceptores quiseram acabar com aquele escândalo, mas o rei insistiu, e procurou meios de se comunicar secretamente com o italiano. Os preceptores, vendo que nada conseguiam, desistiram. D. Afonso VI, convencendo-se do seu poder, prosseguiu nos desregramentos, introduzindo na sua intimidade o irmão de António Conti, negros, mouros e lacaios de ínfima espécie.
Divertiam-se todos em combates de estouvados, primeiro no paço, depois no próprio terreiro, em público. Aquele bando ignóbil não abandonava nunca o rei. Percorriam todos a cidade, de noite, apedrejando janelas, arremetendo contra os transeuntes. Por vezes enchia o paço de mulheres perdidas, também por bazófia, porque não era menos incapaz para as lutas amorosas que para as lutas guerreiras.
D. Afonso VI subiu ao trono em 1656, mas a regência da rainha sua mãe ainda se manteve por vários anos, uma vez que o rei continuava a sofrer de graves diminuições físicas e mentais que se acentuavam com o passar do tempo. A sua capacidade para reinar era bastante discutível, e as opiniões dividiam-se entre a continuação da regência e a subida ao trono de D. Pedro.
D. Luísa de Gusmão contava 27 anos quando, com seu marido, subiu ao trono e foi na maturidade dos 43, depois dos agitados começos do reinado, que em 1656, um tanto prematuramente, enviuvou de D. João IV.
Por morte de D. João IV competia-lhe, como rainha-regente, fazer proclamar sucessor do trono o primogénito D. Afonso, ainda menor de 14 anos, apesar de todas as indicações em contrário e sugestões várias de grandes fidalgos da Corte e do Conselho Real, dadas as turbulências e torpes desatinos desse enfermiço herdeiro, que uma grave doença em criança deixara hemiplégico, física e moralmente diminuído, desequilibrado, para o digno exercício do poder supremo. No íntimo não podia ignorar, nem deixar de lamentar todas as taras que lhe conhecia e o contra-indicavam para tão graves responsabilidades à testa dum reino poderoso, dilatado por três continentes do Mundo. Mas o seu escrúpulo maternal e a consciência do seu dever de rainha resistiam a todas as sugestões ou cerimoniosos conselhos de grandes fidalgos e do próprio Conselho de Estado, a que o fizesse substituir protocolarmente, com a aprovação de Cortes Gerais, pelo irmão D. Pedro, robusto e sadio, que desde muito novo garantia outra solidez de espírito e perfeita saúde de corpo.
A sua rigidez de princípios ditava-lhe, porém, o imperativo de não desapossar o primogénito do trono que por direito lhe pertencia, e atendendo ainda a que essa resolução arbitrária decerto desencadearia ambições e formaria partidos rivais, quebrando a unidade nacional, indispensável à paz interna e boa ordenação do Estado, a debater-se com uma guerra implacável nas fronteiras e nos domínios do Ultramar, objecto das cobiças insaciáveis das principais potências marítimas da Europa.
Não impedia, porém, esse grave problema de consciência que já na própria corte se formassem partidos rivais entre grandes fidalgos, como o do conde de Cantanhede, depois marquês de Marialva, um outro chefiado pelo conde de Odemira e um terceiro pelo conde de Castelo Melhor. Em 1662, um golpe de Estado palaciano põe termo à regência de D. Luísa, colocando no trono o jovem D. Afonso VI mas no poder efectivo o conde de Castelo Melhor. Pouco depois retira-se a rainha da Corte. Sai para a clausura de um convento de Carmelitas, em Xabregas. Ali fecharia os olhos três anos mais tarde, em 1666, levando vida humilde, solitária, ignorada e injustamente abandonada.
D. Maria Francisca Isabel de Sabóia é a princesa escolhida para noiva de D. Afonso VI. A 2 de Agosto de 1666, de manhã, chegou a Lisboa. Pelas 6 horas da tarde, como quem não tinha pressa, foi el-rei vê-la a bordo e trouxe-a para terra com luzido acompanhamento.
Dirigiram-se depois à quinta de Alcântara, que estava magnificamente adereçada. Ali a nova rainha ceou com as damas, camareira-mor e oficiais da casa, el-rei ceou nos seus aposentos. Com aqueles que lhe assistiam desanuviou D. Afonso o espírito do aborrecimento que lhe causara toda aquela fastidiosa solenidade, e quando chegaram as horas em que devia dirigir-se ao quarto da rainha, não houve diligências nem persuasões que o obrigassem a isso, alegando pretextos de indisposições.
Pelo casamento do rei com D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, a situação do conde de Castelo Melhor modificou-se profundamente. A rainha, inteligente e voluntariosa, ligada pela família, aos interesses franceses, quis e conseguiu tomar parte nos conselhos de Ministros e a cada passo, eram inevitáveis as oposições entre ela e este, sempre zeloso dos interesses de Portugal.
A inclinação da rainha pelo cunhado, D. Pedro, chefe encapotado do partido dos descontentes, que lhe favorecia as ambições dinásticas, fez o resto. O Dr. António de Sousa de Macedo, amigo de Castelo Melhor, e a quem a rainha acusou de lhe faltar ao respeito, pedindo a sua demissão, que o rei lhe não deu, por conselho do ministro, foi a gota de água que fez desbordar o copo. Na corte de D. Afonso VI faltava a elevação e gravidade que naturalmente derivam da autoridade de um monarca prestigioso. Procurando cada um aproveitar a incapacidade de el-rei em benefício das próprias ambições, em breve se encontrou a corte envolvida numa atmosfera de intrigas e rivalidades de que nasciam incidentes desairosos. O irmão do rei, D. Pedro, conluiado com a cunhada, com a nobreza e o clero, força a queda do rei. O conde de Castelo Melhor demite-se, foi viver para Londres, onde prestou relevantes serviços a D. Catarina de Bragança, mulher de Carlos II de Inglaterra.
D. Afonso VI, guardado à vista pelo infante seu irmão, viu-se obrigado a anuir a tudo quanto dele exigiam, declarou que desistia do governo do reino, a até abdicaria em seu irmão contanto que o deixassem viver sossegado. Receoso que o rei, estando no continente, servisse de pretexto para algumas conspirações, o irmão D. Pedro conseguiu desterrá-lo para a ilha Terceira, onde o infeliz soberano foi encarcerado no castelo de S. João Baptista de Angra. D. Afonso ali esteve 4 anos. Descobrindo-se uma conspiração, em 1673 em que se pretendia soltar o rei e restituir-lhe o trono, foi o pobre rei transferido para o palácio de Sintra, sendo mortos alguns dos conspiradores. Em 12 de Setembro de 1683, faleceu naquele palácio, quase repentinamente, dum ataque apopléctico, estando a ouvir missa. António de Sousa Macedo e o conde de Castelo Melhor foram homens do rei D. Afonso VI.
António de Sousa de Macedo (1606-1682)
Nasceu no Porto e faleceu em Lisboa. Era de família nobre entroncada nos Braganças. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Depois da Restauração, foi secretário de estado na embaixada que D. João IV enviou à corte de Carlos I de Inglaterra e embaixador na Holanda. Fidalgo da Casa Real, comendador das ordens de Cristo e de S. Bento de Avis, doutor em direito civil pela Universidade de Coimbra, desembargador da Casa da Suplicação, distinto diplomata, secretário de Estado de D. Afonso VI, etc.
Assistiu em 1656 ao juramento do príncipe D. Afonso, proclamado rei de Portugal, pela morte de seu pai, ficando regente do reino sua mãe, D. Luísa de Gusmão. Mais tarde, em 1662, o jovem monarca, por instigações do seu ministro e valido conde de Castelo Melhor, reclamou de sua mãe o poder, e apreciando devidamente António de Sousa de Macedo como um dos portugueses mais dignos e de talento superior, o nomeou, por conselho de Castelo Melhor, seu secretário das mercês.
Em Janeiro de 1663 foi nomeado secretário de estado, e agraciado com as comendas de S. Tiago de Souselas na ordem de Cristo, e de Santa Eufémia, de Penela, na ordem de Avis, e com a alcaidaria-mor de Freixo de Numão. Nas intrigas palacianas e políticas entre D. Afonso VI, seu irmão D. Pedro e a rainha D. Maria Francisca de Sabóia, Macedo, como secretário de Estado toma o partido de D. Afonso VI, a quem era afeiçoado, fazendo oposição ao partido da rainha e do infante D. Pedro. Resultou daqui aborrece-lo a rainha, e para se vingar acusá-lo de lhe ter faltado ao respeito. Porém a forma como os seus próprios inimigos referem o conflito é muito curiosa. A rainha queixou-se de um facto qualquer sucedido com um dos seus criados, e parece que dirigiu algumas palavras de censura aos portugueses, e António de Sousa de Macedo respondeu com irreverente cólera: «que sua majestade não tinha razão de se queixar dos portugueses, porque o respeito que eles lhe tinham, chegava a ser adoração.» Não parece que esta amabilidade possa envolver irreverente cólera, contudo, a rainha considerou-se muito ofendida, e exigiu a demissão de Macedo. D. Afonso opôs-se, sustentou uma grave luta contra sua mulher e seu irmão, mas afinal pela falta de energia, que tão fatal lho foi, esmoreceu a sucumbiu, acabando por ceder.
O conselho do estado entendeu que devia o rei mandar retirar da corte durante 10 ou 12 dias o secretário de estado e restitui-lo depois à sua antiga ocupação.
Passado algum tempo voltou Macedo a exercer o seu antigo lugar, o que aumentou as iras da rainha, e levou seu cunhado, que mais tarde foi seu marido e rei D. Pedro II, a uma cena violenta com D. Afonso VI, acabando o conflito levantado por este motivo pela saída de Macedo para fora do Paço e para sítio, onde nunca mais pudesse receber ordens do infeliz monarca, como ele prometeu e cumpriu.
Foi desterrado para a ilha Terceira após a abdicação de Afonso VI em 1669.
Foi, ainda, director de um dos primeiros jornais portugueses, Mercúrio Português, publicado mensalmente em Lisboa (1663-1666). Escreveu obras em português, castelhano e latim.
Existem diversos testemunhos que permitem afirmar que António de Sousa de Macedo, para além de político e diplomata, era um escritor e intelectual reputado, com parcimoniosa recepção literária e generalizada admiração epocal. A sua obra é um texto sem possibilidade de negação e verdadeiramente positivo. Como, aliás, acontece com o autor António de Sousa de Macedo, que é um dos actores maiores de outro século de ouro da cultura portuguesa. António de Sousa de Macedo faleceu no palácio no largo do Poço Novo, solar de família, onde viveram os seus descendentes.
A seguir: Conde de Castelo Melhor


