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Da Galiza, mensagem : O universo jamais começou – por Isabel Rei

Da Galiza mensagem

O universo jamais começou

 

Antes era costume nomear tempo e lugar: Há muito tempo, algures. Mas quem vem do além-mar principia por dizer que

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.

Clarice, claro. Ela fala também para as galegas porque sabe que o tempo é longo, muito longo, e os lugares não existem fora de nós. Depois explica como é impossível medir a longitude do tempo:

Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim.

O tempo, monstro apocalíptico que nos bota, nos exala, nos esparge enquanto é nosso no presente que sonhamos que vivemos e que

Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou.

Não sei o que, mas sei que a história, como todas as histórias, já tinha começado antes de começar. Já era antes de ser. Já havia Macabea antes de Clarice a escrever. De súpeto, abre-se uma porta lateral, vemos a narradora-poeta tecer para

Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

E a história continua simples, sempre houve alguma vez em toda a parte e tinha algo a ver connosco. A esta história não se lhe conhece início nem fim. Não tem só um tempo porque tem todos os tempos, e não tem só um lugar porque tem todos os lugares. A hora da estrela somos nós viajando o tempo imensurável, desesperadas como moléculas aguardando por um sim.

 

Ramão Nunes Carnicer (1900-1947)

 

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