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POESIA AO AMANHECER – 161 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

ANTÓNIO DA FONSECA SOARES

(FR. ANTÓNIO DAS CHAGAS)

( 1631 – 1682 )

A UMA MOÇA VENDENDO CAMOEZAS (fragmento)

Para a feira vai Luisa

co seu balaio à cabeça,

todo enramado de louro

e cheio de camoezas.

Leva saia de cilício,

também jubão branco leva,

que serve o jubão de branco

onde amor atira as flechas.

Sobre os dedos pendurados

levava os punhos de renda;

tão valentona caminha

que treme o bairro de vê-la.

Lá no meio do Rossio

levanta a voz mui serena

como se aprendera solfa:

– Eu já tenho camoezas!

(…)

Mas Luisa mui de espaço

alevantando a voz bela,

de quando em quando repete:

– Eu já tenho camoezas!

Este poema recorda, sem dúvida, o conhecido vilancete de Camões, “Descalça vai pera a fonte”. Documenta, porém, algumas das tendências da produção poética do período barroco: o pendor realista, a pormenorização do retrato ou a figura do equívoco (“branco”, de cor branca, e “branco”, alvo a que se atiram as setas).

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