Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo (…) Furtam pelo
modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que
manejam muito (…) Furtam pelo modo potencial, porque sem pretexto nem
cerimónia, usam de potência. (…) Furtam juntamente por todos os tempos (…)
para incluirem no presente o pretérito e futuro (…). Finalmente, nos mesmos
tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plusquam perfeitos, e
quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de
furtar mais, se mais houvesse. Em suma que o resumo de toda esta rapante
conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar (…). É
certo que os reis não querem isto, antes mandam em seus regimentos tudo o
contrário; mas como as patentes se dão aos gramáticos destas conjugações
tão peritos (…) que outros efeitos se podem esperar dos seus governos?
O “Sermão do bom ladrão” foi pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa na terça-feira santa de 1655. O discurso parece destinado à educação do príncipe, de tal modo que o orador começa por dizer que o tema teria muito mais a ver com o palácio e com a Capela Real. O texto é notável pela argúcia e agudeza do pregador, referindo-se, mais uma vez, à actuação dos colonos no Brasil. Pela abundância das metáforas de grande expressividade, julgo que não é forçado classificá-lo como poema em prosa e, como tal, incluí-lo nesta secção, até pela sua grande actualidade.