Site icon A Viagem dos Argonautas

CASAR? – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

O sermão aconteceu logo depois de eu ter abandonado o quarto onde, por birra, ficara trancado durante uma semana. Sem comer nem beber, nem sequer atender a quem me batia à porta. A minha Mãe, coitada, era a mais insistente. Plantou-se no corredor durante os sete dias da minha clausura voluntária. Lamentava-se, chorava muito, e eu lá dentro a fingir a indiferença. Motivo da birra: o meu cavalo caíra, partira a mão direita, tivera que ser abatido. A raiva e o desgosto é que me empurraram para a solidão do meu quarto. Gostava muito daquele bicho, o Bucéfalo vinha comer à minha mão, era capaz de conduzi-lo sem rédeas, nem sela, nem esporas, bastava um toque de joelhos. Bucéfalo, tal e qual o cavalo guerreiro de Alexandre Magno, o meu herói…

O meu Pai lá teria as suas razões em não confiar em mim. Realmente, não sei ainda hoje o que fazer da vida. Já tenho sessenta anos, acabei de fazer o cálculo. Mas já tive quarenta, já tive vinte e quinze e dez. Tudo me parece estar a acontecer num só presente. Faço um grande esforço para conceber o que seja ontem e anteontem. Concluo que tempos idos são agora reversões da bruma.

Dinheiro nunca me faltou no bolso. E no banco, à minha ordem. Desde sempre fui o herdeiro e herdeiros não podem levar vida de pelintra. O que não impede que tudo seja sempre muito monótono, repetitivo. Não tenho pachorra para ouvir o que já espero ouvir, as convenções, as parvoíces, as patacoadas dos outros. Não suporto os realejos a tocarem sempre a mesma melodia.

Casei porque tinha que casar, era a tradição. Não queria mas transigi, sacrifiquei-me pela família, era preciso herdeiro para continuar a Casa Vossler. Tenho ou tive dois filhos, César e Marco. Desses eu gostava, gosto muito. A minha esposa morreu de cancro nos ovários quando César, o mais velho, tinha apenas seis anos. Marco tinha quatro. Tanto amor lhe dedicava que não sou capaz de recordar as suas feições… Os meninos foram criados por Sara, a nossa cozinheira. Ela é que foi a verdadeira mãe-preta dos meus filhos. Até nisso falhei. Eu deveria era ter casado outra vez para que uma senhora branca cuidasse, como devia de ser, da educação dos rapazes. Mas casar não quis, já chegava de rotina. Preferi andar na estroina com mulheres da vida e coristas em tournée. Fui muito censurado pelas mães de donzelas casadoiras.

 

In A COR DOS HOMENS

Exit mobile version