A MORTE DO PAI – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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O Júlio começa a contar como se fosse terceira personagem da sua história. Eu estava meio ensonada, logo desperto.

– Um quarto com mobília moderna, cama individual. Pela janela entra o sol da manhã. Zé Vera, de pijama e chinelos, está sentado na beira da cama. Apoia a mão direita numa bengala. Grita:

«Estou sujo, cheiro mal, quero tomar banho.»

 Júlio entra no quarto. Traz um alguidar com água quente. Diz:

«Já vamos tratar disso.»

 Ajuda o pai a levantar-se. Zé Vera geme com dores. Júlio despe-lhe o pijama e senta-o, já nu, numa cadeira. No alguidar flutua uma esponja que Júlio ensaboa. Começa a lavar o pai.

«Cuidado com os meus tomates.»

Júlio termina a lavagem e enxuga o corpo do pai com uma toalha. Põe-no de pé. Veste-lhe um pijama lavado. Puxa uma segunda cadeira que está seca, e senta-o aí. Zé Vera ofegante com o esforço. Júlio sai do quarto com o alguidar. Regressa. Alisa os lençóis da cama. Bate a almofada. Diz:

«Pai, vamos lá deitar.»

«Eu quero ficar aqui.»

«Mas não pode, não é cómodo, pode cair.»

«Dá-me a bengala que eu não caio. Eu quero ficar aqui.»                      

«Mas não pode, pai.»

«Já te disse que eu quero ficar aqui.»

«Ó pai, não seja teimoso, por favor…»

«Não me chateies, eu quero ficar aqui.»

Dá uma veneta ao Júlio. Agarra no pai ao colo e transporta-o para a cama. Assustado, Zé Vera grita:

«Eu caio, eu caio, eu caio…»

Júlio mete o pai na cama. Ajeita-lhe a roupa.

«Triste vida a minha, agora já fazes comigo o que tu queres…»

 Gemendo, vira-se sobre o lado esquerdo. Coloca a mão sob o rosto. Respiração ofegante. Fecha os olhos.

O Júlio leva a mão à testa. Fica-se, de olhar fixo, a contemplar o Tejo e anoitece. Diz, fio de voz:

– Meia hora depois tinha morrido, passarinho…

– Uma figura… – murmuro. – Tão parecidos que vocês eram e andavam sempre às turras. Porquê?

– Talvez por isso mesmo…         

Cala-se. Respeito-lhe o silêncio. Ele a chorar a morte do seu pai, recolhimento. E eu a lembrar-me da morte do meu. Eu estava em Londres a fazer uma reportagem. O meu irmão telefonou-me, eram dez da noite, vem depressa. Na manhã seguinte regressei a Lisboa, mas o pai já tinha partido, o coração fora-se abaixo. Morreu como vivera, discreto no seu cantinho. Ficava horas a contemplar as pedras preciosas que vendia. Às vezes cravejava um aforismo:

«Princesinha, tu és um brilhante. Não te dês a quem não te mereça.»

Ele foi a mansidão que atravessou a minha vida.

O Júlio repara nas minhas lágrimas, comove-se. Pensa que seja pranto pelo seu pai. E talvez seja. É pranto pelo Pai, qual seja ele, o dele, o meu.

 

In QUERENÇA

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