Após o assassinato de D. Carlos, em 1908, Portugal passou a viver um clima de pré-insurreição. D. Manuel II, embora desse o seu melhor para acalmar as tensões, nomear um governo credível e ultrapassar as dificuldades, não conseguiu evitar a derrocada do regime, que caiu num crescente descrédito. Os republicanos preparavam-se para o golpe, que ficou marcado para o dia 3 de Outubro. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a implantação da República esteve à beira do fracasso. Só a desorientação das forças leais ao regime e a ousadia e coragem de um punhado de revoltosos é que permitiu que o movimento triunfasse. Os 4470 soldados e os 3771 polícias controlados pelo estado-maior monárquico chegavam e sobravam para dar cabo das quatro centenas de carbonários civis e militares que estavam com Machado Santos no Parque.
Na verdade, o plano traçado pelos insurrectos falhou, causando a confusão no seio dos seus dirigentes. O almirante Cândido dos Reis, que comandava os revoltosos, julgou estar tudo perdido e suicidou-se. Só a determinação de Machado Santos é que salvou a situação, barricando-se com as suas escassas tropas na Rotunda, onde passou a resistir às forças leais ao regime. Os oficiais que o acompanhavam desistiram, e só dois navios de guerra mostraram apoiar a revolução. Os insurrectos ficaram, assim, isolados, mas resistiram aos sucessivos ataques. Finalmente, a Marinha aderiu ao movimento, tendo vários navios bombardeado as posições das tropas do regime e o Palácio das Necessidades, onde estava o rei. Ao romper da alvorada de dia 5 já a República podia ser dada como certa em Portugal. Finalmente a Marinha estava onde era ansiosamente esperada pelos resistentes do Parque.
A República foi proclamada por todo o país, sem se verificar grande resistência.
Toda a gente chegara à conclusão que o regime caíra por si. Na verdade, não havia nenhum partido que considerasse a figura do rei como intocável. A Monarquia estava em profunda crise, pelo que ninguém, em boa verdade, estava convencido que deveria ser preservada. A esmagadora maioria da população aceitou o novo regime, convencida de que traria uma renovação da vida política, a retomada do crescimento económico e, sobretudo, o fim do clima de tensão que se vivia desde há algum tempo.
Estava consumada a revolução. A confusão e paralisia das forças do regime haviam transformado uma débil insurreição numa vitória impressionante.
Pouco depois, o rei D. Manuel II, acompanhado de sua mãe, D. Amélia e de sua avó, D. Maria Pia, embarcava numa praia da Ericeira no iate D. Amélia, rumo a Gibraltar. Daí seguiria para Inglaterra, para o exílio.
Tal como na lenda de D. Sebastião, o destino da Nação portuguesa passava pelas areias de uma praia de Portugal. Mas não era o rei Desejado que voltava numa manhã de nevoeiro. Era o rei Desventurado que partia numa tarde de sol.» *
* José Brandão, Portugal Trágico – O Regicídio.
Cronologia específica
Afonso Henriques
1128 – Batalha de S. Mamede contra a mãe, D. Teresa.
1140 – Torneio de Arcos de Valdevez contra o primo Afonso VII rei de Leão e Castela.
1169 – Combate em Badajoz contra o genro Fernando II rei de Leão.
D. Sancho I
1185 – Guerra contra o cunhado D. Fernando II de Leão.
1196 – Guerra contra o genro D. Afonso IX rei de Leão.
1198 – Conflitos com os bispos e o papa Inocêncio III.
1210 – D. Sancho I é excomungado.
D. Afonso II
1211 – Contendas com as irmãs infantas D. Teresa, D. Sancha e D. Mafalda.
1211 – Guerra com o cunhado D. Afonso IX de Leão.
1217 – Conflito com os bispos e com a Santa Sé.
1217 – Conflitos com o meio-irmão Martim Sanches.
1220 – D. Afonso II é excomungado.
D. Sancho II
1227 – Conflitos com os bispos.
1245 – Bula papal ordenando a substituição de D. Sancho II por D. Afonso III.
1245 – Guerra civil entre D. Sancho II e o filho D. Afonso III.
1246 – Rapto, ou fuga da rainha D. Mécia Lopes Haro.
1247 – D. Sancho II abandona o país e refugia-se em Toledo onde morre.
D. Afonso III
1252 – Guerra com o futuro sogro Afonso X de Castela.
1253 – Casamento de D. Afonso III com D. Beatriz, filha de D. Afonso X de Castela.
1275 – Afonso III é excomungado, devido à ilegitimidade do casamento com D. Beatriz.
D. Dinis
1281 – Primeira desavença entre D. Dinis e o seu irmão D. Afonso.
1287 – Nova guerra civil entre D. Dinis e seu irmão D. Afonso.
1295 – Guerra com Castela contra o futuro genro D. Fernando IV.
1299 – Terceira guerra entre D. Dinis e o seu irmão D. Afonso.
1314 – Guerra civil entre D. Dinis e o seu filho infante D. Afonso IV.
1323 – Recontro de Alvalade entre o Rei e o filho D. Afonso.
D. Afonso IV
1324 – Conflito político-militar com o pai D. Dinis.
1325 – Guerra civil entre o Rei e o irmão bastardo D. Afonso Sanches.
1325 – Manda executar o irmão infante D. João Afonso.
1335 – Guerra contra o genro D. Afonso XI rei de Castela.
1355 – Manda executar D. Inês de Castro.
D. Pedro I
1355 – Rebelião do infante contra o pai D. Afonso IV.
1357 – Os assassinos de D. Inês de Castro são severamente punidos.
1360 – D. Pedro declara solenemente que casara com D. Inês de Castro.
D. Fernando
1372 – Casamento com D. Leonor Teles, infringindo o Tratado de Alcoutim.
1373 – Tumultos urbanos generalizados.
1381 – Guerra com o futuro genro D. João I de Castela.
D. João I
1383 – O Conde de Andeiro é assassinado pelo mestre de Avis.
1401 – D. João I legitima o seu filho bastardo, D. Afonso.
D. Duarte
1437 – O infante D. Fernando, irmão do Rei D. Duarte, é feito refém em Tânger.
1438 – Oposição à regência de D. Leonor.
D. Afonso V
1438 – Casa com a prima D. Isabel, filha do tio D. Pedro.
1448 – Relações tensas entre D. Afonso V e tio regente D. Pedro.
1449 – Batalha de Alfarrobeira. D. Pedro defronta o sobrinho e morre.
1460 – Casa com a sobrinha D. Joana.
D. João II
1471 – Casa com a prima D. Leonor.
1483 – Manda prender o duque de Bragança que é degolado.
1484 – Mata pessoalmente o cunhado D. Diogo apunhalando-o.
D. Manuel I
1497 – Primeiro casamento. Com a viúva do príncipe D. Afonso, D. Isabel.
1500 – Segundo casamento. Com D. Maria, irmã da sua primeira mulher.
1506 – Matança dos cristãos-novos.
1518 – Terceiro casamento. Com D. Leonor, noiva de seu filho D. João III.
D. João III
1531 – D. João III pede ao Papa autorização para estabelecer a Inquisição em Portugal.
1540 – Primeiros autos-de-fé.
D. Sebastião
Desentendimento com a avó D. Catarina
Desavença com o tio-avô D. Henrique.
D. Henrique
Desavença com o sobrinho D. Sebastião.
D. António
1580 – Batalha de Alcântara.
D. João IV
1641 – São executados, entre outros, o duque de Caminha e o conde de Armamar.
1643 – Execução de Francisco Lucena, secretário de Estado de D. João IV.
1646 – Execução de Domingos Leite. Tentativa de regicídio.
D. Afonso VI
1666 – Casamento com Isabel de Sabóia.
1667 – Pedido de anulação do casamento, alegando impotência física do Rei.
1667 – Deposição do Rei a favor do irmão D. Pedro II.
1668 – Proclamação da anulação do casamento de D. Afonso VI com a Rainha.
1669 – D. Afonso VI é preso e desterrado para os Açores.
1674 – Sufocada uma conspiração a favor de Afonso VI.
D. Pedro II
1668 – Regência de D. Pedro II na sequência da deposição do irmão D. Afonso VI.
1668 – D. Pedro casa com a ex-cunhada Isabel de Sabóia.
1674 – Luta com os partidários do irmão D. Afonso VI.
D. João V
1728 – Corte de relações com a Santa Sé.
Os meninos de Palhavã.
D. José I
1759 – Execução dos Távoras.
1768 – Instituição da Real Mesa Censória.
1776 – Incêndio da Trafaria.
D. Maria
1760 – Casa com o tio D. Pedro III.
1781 – Processo de julgamento do Marquês de Pombal. Condenado ao desterro.
1792 – A Rainha é atacada de loucura. Regência de do príncipe D. João.
D. João VI
1807 – Fuga da família real para o Brasil.
1817 – Execução de Gomes Freire no forte de S. Julião da Barra.
1820 – Revolução liberal no Porto.
1821 – Regresso de D. João VI do Brasil.
1823 – D. João VI enfrenta o filho D. Miguel.
D. Pedro IV
1826 – Resistência do irmão D. Miguel.
1828 – Conflito entre D. Pedro IV e o seu irmão D. Miguel para a posse da coroa.
D. Miguel
1828 – Inicio das guerras entre D. Miguel e o irmão D. Pedro IV.
1832 – Desembarque de D. Pedro IV na praia de Mindelo.
1834 – Deposição de D. Miguel, cujo exílio é decretado.
D. Maria II
1835 – Casamento com o Prince Charles Auguste o qual morre dois meses depois.
1846 – Revolta da «Maria da Fonte» contra o governo de Costa Cabral.
D. Pedro V
1856 – Inauguração da primeira linha ferroviária entre Lisboa e o Carregado.
1858 – Casamento de D. Pedro V com D. Estefânia.
1858 – Inauguração do telegrafo eléctrico.
1858 – Questão barca francesa Charles & George.
1858 – Abolição do beija-mão. 1859 – Introdução do Sistema Métrico em Portugal.
1859 – Morte da rainha D. Estefânia, devido a uma angina diftérica, com 22 anos de idade.
1859 – Fundação do Curso Superior de Letras.
1861 – D. Pedro V morre no seguimento de uma viagem ao Alentejo, vítima de febre tifóide.
D. Luís I
1861 – Tumultos em Lisboa, devido às suspeitas sobre as causas da morte de D. Pedro V.
1869 – A escravatura é abolida em todas os domínios.
1867 – Abolição da pena de morte. D. Carlos I
1890 – Ultimato inglês, motivado pelo célebre mapa cor-de-rosa.
1891 – Revolução republicana de 31 de Janeiro.
1907 – Ditadura de João Franco.
1908 – Tentativa revolucionária gorada.
1908 – D. Carlos e o filho mais velho são assassinados no Terreiro do Paço.
D. Manuel II
1908 – Tenta manter a estabilidade com o Partido Republicano, mas não consegue. 1910 – Dá-se a Implantação da República. 1910 – D. Manuel II parte para o exílio.
Bibliografia Sumária
ALMEIDA, Fortunato de, História de Portugal, Lisboa, Promoclube, s. d.
BRANDÃO, José, Carbonária. O Exército Secreto da República, Lisboa, Publicações Alfa, 1990.