SALAZAR E A I REPÚBLICA – 8 – por José Brandão

Das impressões dessa deslocação, o prestigiado escritor espanhol haveria de publicar o livro Por Terras De Portugal e da Espanha, um dos mais interessantes documentos que alguma vez foi escrito sobre este pedaço de chão que tem Lisboa por capital.

Unamuno fala deste país com palavras de uma verdade crua, sincera e ao mesmo tempo arrasadora. Diz este autor:

«Portugal representa-se-me como uma formosa e doce jovem camponesa que, de costas para a Europa, sentada à beira-mar, com os pés descalços na praia onde a espuma das gemebundas ondas os banha, os cotovelos fincados nos joelhos e o rosto entre as mãos, olha como o sol se põe nas águas infinitas. Porque para Portugal o sol não nasce nunca: morre sempre no mar que foi teatro das suas façanhas e berço e sepulcro das suas glórias.

[…]

É o oceano um vasto cemitério, sobretudo para Portugal. O mar, essa é a «campa», esse é o cemitério desta desgraçada pátria de Vasco da Gama, de João de Castro, de Albuquerque, de Cabral, de Magalhães, de todos os maiores navegadores do mundo, desta pátria do infante D. Fernando, do rei D. Sebastião, que além do mar morreram. Nesse imenso cemitério vivo, que vem a murmurar fados beijar as praias deste

«Jardim da Europa, à beira-mar plantado,»

Nesse imenso cemitério descansa a glória de Portugal, cuja história é um trágico naufrágio de séculos. E este murmúrio do oceano, estas queixas que vêm do seu seio quando o sol nele se deita, — não são acaso as vozes das pobres almas portuguesas que vagueiam errantes nas suas ondas? Não pedem sufrágios aos vivos? Não é aqui o mar do Purgatório?»

É o Portugal de D. Carlos assassinado. Penúltimo e trigésimo segundo soberano de Portugal, D. Carlos foi uma figura histórica incontornável, tendo reinado num dos mais conturbados períodos da vida política nacional. O seu reinado poderá dividir-se em fases distintas, correspondentes a outros tantos aspectos da política interna e externa portuguesas.

Na fase, que decorre nos três anos que se seguem imediatamente à ascensão ao trono do novo monarca, pretende-se inaugurar um período de verdadeira regeneração nacional, que substitua a cansada demonstração partidária do governo de D. Luís. Ao cingir a coroa, em 1889, D. Carlos ouve exortações veementes para que exerça o poder pessoal que, na verdade, e mesmo no âmbito da Carta, competia aos soberanos constitucionais.

Portugal que D. Carlos tem para reinar é aquele que Guerra Junqueiro retrata no poema Pátria, com um vigoroso quadro do País no fim do século. É um texto que ilustra a atitude derrotista e o mito da decadência. Destacam-se algumas afirmações como as que se seguem:

« – Os políticos:

«Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar à monarquia ou meia libra ou uma gota de sangue.

Um partido republicano composto sobretudo de pequenos burgueses da capital, adstritos ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente de balcão, não de barricada, com um estado-maior pacífico e desconexo de velhos doutrinários, moços positivistas, românticos, jacobinos e declamadores.»

– A burguesia:

«Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal.»

– O clero:

«Um clero português desmoralizado e materialista, um clero jesuítico, estrangeiro ou estrangeirado, força superior cosmopolita, invencível, adaptando-se com elasticidade inteligente a todos os meios e condições.»

– O exército:

«Um exército que importa em 6000 contos não valendo 60 réis, como elemento de defesa e garantia autonómica.»

– O povo:

«Humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai, um povo que eu adoro, porque sofre e é bom.»

– A economia:

«Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e perda de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio.

Humanizar o ensino, nacionalizar a indústria, um clero português e cristão, a justiça fora da política, o exército fora de S. Bento, os burocratas para a burocracia, o professorado para as escolas, o poder legislativo entregue às forças independentes e vivas do País, arrotear o solo, colonizar a África – tudo era possível, tudo era simples desde que nos dessem uma fé, uma crença, vida luminosa, uma alma!»

E foi neste Portugal que ocorreu o 1.º de Fevereiro de 1908.

A génese do regicídio está ainda por descobrir e provavelmente nunca a sua história virá a ser feita com verdade.» – Dirá João Franco quinze anos depois. «O regicídio foi obra de políticos, sem dúvida. Quais?» *

* José Brandão, Portugal Trágico – O Regicídio, Âncora Editora, Lisboa, 2008, pp. 84 e 85.

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