Das notícias mais recentes, a que parece causar mais estranheza no mundo dos negócios, para lá das notícias correntes sobre as dívidas soberanas, das previsões pouco animadoras do FMI para a economia mundial, é a súbita queda da cotação do ouro, quando tudo apontava para uma contínua subida à medida da perda de confiança dos investidores nos vários activos onde aplicar os seus recursos.
Invoca-se que o facto que determinou esta queda está no anúncio da parte do governo cipriota da sua vontade de vender ouro para acudir às suas aflições, mas também ( contraditóriamente) ao abrandamento da economia chinesa.
Mas logo alguém ( Peter Schiff) lembra que os países que estão com grandes dívidas públicas poderão ter que vender parte das suas reservas em ouro para saldarem parte delas, mas que essas eventuais vendas não chegarão aos mercados de forma a fazerem baixar o preço do ouro. Assim, haveria que pôr alguma água na fervura e considerar que esta situação é meramente temporária e especulativa, para se alterar dentro de dias ou semanas.
Temo que essa não seja a única explicação, ou que explique tudo.
Julgo que esta evolução é um exmplo típico das contradições do mercado, das suas irracionalidades, ou de uma realidade onde não se pode excluir acção deliberada de alguns.
Por um lado, esta situação pode ser explicada pelo facto de que muitos investidores que vinham comprando ouro e viam nele uma protecção contra uma catástrofe próxima de desvalorização do dinheiro e das suas aplicações em activos conhecidos, tenham concluído que essa catástrofe não é já para amanhã, e que entretanto podem fazer mais com liquidez nas mãos do que com um metal que não dá lucros ou juros regulares, mas apenas num momento futuro quando for vendido a alguém que o quiser muito. E então muitos investidores e cidadãos venderam ouro para obterem liquidez para outras aplicações, designadamente liquidarem dívidas. E isso pode ter desencadeardo de um momento para o outro um movimento automático, uma vez que muitas ordens de venda e compra são hoje dadas por computadores que obedecem a instruções muitos estritas e actuam imediatamente. Os computadores podem ter chegado a uma decisão após um longo processo de venda que interpretaram como perigoso.
Mas este movimento inicial pode ter sido também depoletado pelos sinais de arrefecimento da actividade económica nas áreas que têm mostrado maior dinamismo desde a recessão de 2009, o que parece confirmar-se na baixa de cotação de matérias primas industriais, de petrólelo e de alimentos, de fretes marítimos, etc. Isto pode querer dizer uma nova recessão mundial a caminho. E num caso desses, pelo menos momentâneamente o ouro pode perder algum interesse como aplicação.
Mau, se esta visão for correcta! E as previsões revistas em baixa pelo FMI também me ajudam neste cenário.
Se isto se confirmar, então a linha de intervenção dos bancos centrais dos EUA , do Japão, do Reino Unido não sofrerá muita contestação dos puristas liberais. Paul Krugman mantém-se assim em alta. Eu afino por este diapasão, embora entenda que a falha neste processo e nas propostas de P Krugman está em deixar a recuperação nas mãos dos sector privado, porque isso simplesmente não vai ocorrer uma vez que esta recessão não é típica. É uma situação muito mais próxima dum pós guerra do que pós recessão ciclíca. Tanto para as empresas como para as famílias ( desemprego e baixos rendimentos salariais).
Os governos ocidentais vão ter que adoptar estratégias de transição para as suas economias que estão num beco de competitividade sem saída.
Os motores de crescimento tradicionais não chegam para relançar as economias e sobretudo para criarem emprego relevante.
Neste sentido, este fenómeno da queda do preço do ouro pode ser, no final de contas, um prenúncio não intencional de uma nova recessão a caminho, ou de um longo periodo percepcionado pelos investidores como de estagnação incontornável e de baixa ou nenhuma inflação, mesmo com toda a impressão de moeda para estímulo à inflação e desvalorização forçada das moedas.
Enfim, mais um evento que mostra a complexidade da economia global e da imensa dificuldade da esfera política saber traçar um rumo.
Quando vemos as nossas televisões vemos discutir-se os cortes, a austeridade, mas praticamente ninguém aponta as núvens negras do horizonte e muito menos a alteração da vida económica, social, política, e individual que está em marcha.
