A China em acção : a caminho da queda do dólar – por Auran Derien

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A China em acção : a caminho da queda do dólar

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A China em acção : a caminho da queda do dólar

Auran Derien, professor, La Chine en action : vers la chute du dollar

Revista Metamag, 29 de Fevereiro de 2016

A caminho de um mundo não dolarizado

Desde o início de 2016, o Banco Central da China pôs em funcionamento um sistema interbancário de venda e compra de ouro. Duas instituições, sucursais do Banco Central, partilham entre si as responsabilidades das operações.

O mercado interno do ouro está sob a responsabilidade do Shanghai Gold Exchange (SGE); o mercado interbancário é administrado pelo Foreign Exchange Trading System (CFETS) da China. Se se sabe que a China é o principal país detentor de ouro no mundo, a quantidade exacta não é conhecida, de modo que as novas instituições vão melhorar a liquidez interbancária do ouro favorecendo ao mesmo tempo a criação de novos mercados para o metal.

Até agora, os bancos chineses não podiam negociar ouro entre eles. Cada banco tinha apenas a possibilidade de comprar metal ao Shanghai Gold Exchange, instituição monopolística pela qual passavam todos os pedidos. Doravante, dez bancos vão intervir sobre estes dois níveis. Quatro bancos, associados ao grupo Australia and New Zealand Banking group (ANZ) farão funcionar o mercado primário. Seis outros bancos participarão no mercado secundário. Continua a ser proibido exportar ouro, mas ao mesmo tempo o Banco Central compra em média 20 toneladas mensalmente e isto desde 2015.

Fim da confiança no dólar

Estas operações reforçam a análise segundo a qual as pessoas civilizadas por todo o mundo se começam a cansar das transacções ligadas ao dólar. Desde 2014, os contratos entre a China e a Rússia eliminaram a utilização do dólar. Os Chineses reduziram as suas enormes reservas desta moeda comprando, através do mundo, ativos de todas as espécies. Apostam na Europa, nomeadamente nas empresas que utilizam tecnologias em que estão interessados, tanto na França como na Alemanha.

Além do mais, na França procuram instalar um centro de redistribuição a partir do qual distribuem os seus produtos por toda a Europa, beneficiando por um lado das mesmas vantagens que as multinacionais (não há impostos, etc.), por outro lado utilizam o rótulo “made in France ” sobre o essencial da sua produção importada que revendem no mundo como se fosse local. A City de Londres, desde Outubro de 2014, coopera com a China para emitir obrigações expressas em Renminbi e novas instituições bancárias, tais o Banco Asiático de Investimento para as Infra-estruturas (AIIB), irão permitir a diversos países afastar-se gradualmente das sanguessugas do Banco Mundial.

Pode-se por conseguinte deduzir que os Chineses querem manter uma porta de saída para o caso muito provável de que as bolhas gigantescas construídas pela finança globalizada rebentem mais ou menos rapidamente. O ouro seria uma base de negociação monetária face à incerteza que se seguiria à queda do dólar ou do Euro. Os títulos públicos americanos já são considerados como sem valor porque Janet Yellen, que fala em nome da Reserva Federal americana, pretende que as taxas de juro sejam mantidas ou aumentadas enquanto que cada um constata a ruína da economia americana e do Ocidente em geral. Tudo é falso, enganador,; este espectáculo encarna perfeitamente a revelação monoteísta: o real não existe, somente a palavra se deve impor aqui, ou seja os índices oficiais traficados.

Numa situação de deliquescência da economia ocidental e de perda de prestígio dos financeiros transcendentais, o ouro reencontrará a função que teve desde a origem do mundo: ser uma referência, um apoio, uma forma de riqueza. A China, ao comprar ouro, separa-se dos dólares apodrecidos deixando ao mesmo tempo desvalorizar a sua moeda porque todas as moedas se desvalorizam no tempo da criação monetária desenfreada imposta pela finança mundializada. Mas o mecanismo é inovador. O preço do ouro é determinado em yuans, existe um comércio interbancário para o metal, de modo que o yuan disponha de uma cotação “absoluta” em ouro, independente da cotação em dólar. Os câmbios flexíveis permanecem dado que não é possível hoje fixar regras equitativas para o sistema monetário internacional. Resta que o preço do yuan em ouro é um melhor índice do valor do yuan que a cotação do yuan em dólar.

Estimular as exportações alterando os fluxos

Esta notícia sobre este comportamento da China entra também em concorrência com uma instituição que depende dos demónios financeiros de Londres. O poder financeiro sempre quis o monopólio da emissão de moeda. A China oferece uma alternativa: o preço do ouro em renmibi em vez do preço do ouro fixado em Londres e em dólares. De acordo com a lógica da arbitragem, poderia daqui resultar muito e rapidamente uma transferência das transacções para a China que, oferecendo uma melhor taxa, incitaria a maior parte dos agentes a vender o seu ouro contra yuans. A expansão do yuan permitiria comprar mais bens e serviços e por conseguinte, gradualmente, estimularia o comércio externo chinês.

O banco “Goldman Sachs” testou a sua capacidade de dano em 16 de Fevereiro deste ano atacando o preço do ouro e retomando o seu já velho discurso sobre a falta de futuro de um metal que, aliás, compram sistematicamente. O sistema bancário “dos criminosos de colarinho branco” promove permanentemente a fraude , os certificados de ouro (um bocado de papel) tão bons como o ouro físico. Esta pequena vigarice chegará ao seu fim se o sistema chinês funcionar bem, permitindo a compra/venda de ouro físico em vez dos bocados de papel de Goldman Sachs e Co.

A guerra monetária fundada sobre a criação ex nihilo vai finalmente favorecer a China, cuja moeda está a partir de agora ligada à cotação do ouro em que os demónios de Londres não serão agora os únicos a determinar o seu valor e de acordo com os seus próprios interesses?

Cada um espera que a via para a desdolarização do mundo continue em frente e que aqueles que criaram esta arma de destruição maciça deixarão gradualmente de nos prejudicar, a todos nós.

Auran Derien, professor, La Chine en action : vers la chute du dollar. Texto publicado em Metamag e disponível em : http://metamag.fr/2016/02/29/la-chine-en-action-vers-la-chute-du-dollar/

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