Com a devida vénia ao Anselmo Borges e ao Diário de Notícias
No quadro do neoliberalismo, o economista Riccardo Petrella resumiu as novas Tábuas da Lei (sigo a síntese do teólogo Juan J. Tamayo): não podes resistir à globalização dos mercados e das finanças – deves adaptar-te a isso. Deverás liberalizar completamente os mercados, renunciando à protecção das economias nacionais. Todo o poder pertence aos mercados: as autoridades políticas transformar-se-ão em meras executoras das suas ordens. Tenderás a eliminar qualquer forma de propriedade pública, ficando o governo da sociedade nas mãos de empresas privadas. Tens de ser o mais forte, se quiseres sobreviver no meio da competitividade actual. Renunciarás à defesa da justiça social, superstição estéril, e à prática do altruísmo, igualmente estéril. Defenderás a liberdade individual como valor absoluto, sem qualquer referência ou dimensão social. Defenderás o primado da economia e da finança sobre a ética e a política. Praticarás a religião do mercado com todos os seus rituais, sacramentos, pessoas, livros e tempos sagrados. Não terás em conta as necessidades dos pobres e excluídos, gente a mais, pois não gera riqueza. Porás a Terra ao serviço do capital, que é quem maior rendimento pode tirar dela, sem atender a considerações ecológicas, que só atrasam o progresso.
Perante esta situação que leva à catástrofe, impõe-se uma alternativa, que Tamayo sintetiza nalguns mandamentos, “orientados para a construção da utopia de uma sociedade alternativa”.
Ética da libertação, com o imperativo moral: “Liberta o pobre, o oprimido.” Ética da justiça: “Age com justiça nas relações com os teus semelhantes e trabalha na construção de uma ordem internacional justa.” Num mundo onde impera o cálculo, o interesse próprio, ética da gratuitidade: “Sê generoso. Tudo o que tens recebeste-o de graça. Não faças negócio com o gratuito.” Ética da compaixão: “Sê compassivo. Colabora no alívio do sofrimento.” Ética da alteridade e da hospitalidade: “Reconhece, respeita e acolhe o outro como outro, como diferente. A diferença enriquece-te.” Ética da solidariedade: “Sê cidadão do mundo. Trabalha por um mundo onde caibam todos.” Num mundo patriarcal, de discriminação de género, ética comunitária fraterno-sororal: “Colabora na construção de uma comunidade de homens e mulheres iguais, não clónicos.” Ética da paz, inseparável da justiça: “Se queres a paz, trabalha pela paz e pela justiça através da não-violência activa.” Ética da vida: “Defende a vida de todos os viventes. Vive e ajuda a viver.” Ética da incompatibilidade entre Deus e o dinheiro, adorado como ídolo: “Partilha os bens. A tua acumulação desregrada gera o empobrecimento dos que vivem à tua volta.” Num mundo onde impera a lei do mais forte, ética da debilidade: “Trabalha pela integração dos excluídos, são teus irmãos.” Ética do cuidado da natureza: “A natureza é o teu lar, não a maltrates, não a destruas, trata-a com respeito.”
Utopia? Não é a função da utopia criticar o presente e transformá-lo? Para evitar a tragédia daquela estória: “Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada.” (Ana Hatherly).
