
É já um lugar-comum a afirmação de que a Guerra Civil de Espanha foi o ensaio geral para o conflito que Hitler e Mussolini projectavam. A ajuda de Alemanha e Itália foi decisiva para a vitória franquista. Portugal foi um parceiro discreto, mas importante, pois o território português constituiu uma plataforma logística permanente para as forças ditas «nacionalistas». No que se refere à Alemanha, a ajuda mais visível terá sido a intervenção da aviação germânica. Foi Hermann Göering, comandante da Luftwaffe, quem a sugeriu a Hitler que se aproveitasse o ensejo para testar a aviação alemã numa guerra convencional. E em Novembro de 1936 os primeiros homens da Legião Condor, cerca de 700, desembaraçavam em Sevilha. Mas ao longo do conflito, a Alemanha envolveria nos combates cinco mil aviadores, unidades blindadas, artilharia e uma força de infantaria auto-transportada, atingindo um total de 15 mil homens. Por isso, Guernica e Oviedo, por exemplo, experimentaram antes de qualquer outra cidade europeia, o horror dos famosos “tapetes de bombas”.
Foi Serrano Suñer, ministro das relações exteriores dos franquistas quem teve a ideia de criar este corpo de voluntários. Com a devastação provocada pela guerra, a miséria, o desemprego e a
Tal como grande parte dos legionários portugueses, os voluntários da Divisão Azul, eram gente inculta e com uma ideologia feita de preconceitos e de ignorância. Mentalmente, pobres-diabos, capazes das piores felonias, sobretudo para não mostrar medo. Os mitos do heroísmo fascistóide dominavam esse conjunto de ideias feitas a que chamavam ideologia. Manuel Vázquez Montalbán, com o seu Bromuro, o engraxador que fora combatente da Divisão Azul, traça-nos um retrato perspicaz e isento de maniqueísmo, de gente que, mentalmente, vive num mundo que já não existe.
De qualquer modo, homenagear a Divisão Azul, como foi feito por um membro do governo em Barcelona é quase tão grave como Cavaco Silva ter condecorado dois agentes da PIDE no mesmo ano em que recusou uma pensão à viúva de Salgueiro Maia. Salazar e Franco, se pudessem, sorririam nos seus túmulos. Deixaram raízes. A democracia, proibida de proibir, não só não queima estas ervas asquerosas, como as põe nas mais vistosas jarras.
