
António José Seguro, com a falta de convicção que caracteriza o seu discurso, disse na noite de sábado faltar pouco para Portugal chegar a uma crise de regime. Foi em Mangualde, distrito de Viseu, na sessão de apresentação da recandidatura de João Azevedo à autarquia local. «Nós estamos metidos numa grave crise. Uma crise social, uma crise económica, uma crise política. Estas três crises somadas podem dar origem a uma crise de regime». E é verdade. Sobretudo se a estes três factores juntarmos um quarto – a incapacidade da oposição e, mais grave, a cumplicidade do maior partido da oposição relativamente ao modelo de democracia em vigor e o envolvimento de alguns dos seus quadros no descalabro de corrupção e clientelismo que conduziu ao buraco financeiro que está agora a ser pago por quem nada teve a ver com esse crime – trabalhadores, pensionistas e reformados.

Para não irmos muito longe, pois a sessão decorria em Mangualde e Jorge Coelho fez uma intervenção no seu estilo truculento, uma das situações que carecia de cabal esclarecimento, antes de se meter as mãos nos bolsos de contribuintes e de criar o caos social, era a que há cinco anos foi agitada, sobre a concessão de Scuts a empresas de que a Mota Engil de que Coelho era administrador, bem como o negócio da extensão do contrato do terminal de contentores em Alcântara até 2047 com excelentes condições para a empresa, detida pela Mota Engil. O assunto chegou ao tribunal de contas que declarou não haver matéria criminal mas confirmou que se tratou de um mau negócio para o Estado. A reabertura deste dossiê e uma análise às contas bancárias de pessoas como Jorge Coelho, seria uma acção que, de certo modo, tornaria mais aceitáveis alguns sacrifícios por parte da população em geral.
O regime está em crise. O regime é uma crise. Ou melhor, a crise é o motor do regime.
António José Seguro com a sua frustre tentativa de se assumir como salvador, numa pose institucional de quem já se sente primeiro-ministro, faz parte da crise. Deve estar a preparar um discurso escrito há muitas legislaturas atrás. É uma fatalidade, como o discurso da miss mundo, dizendo chorosa, que nunca esperou ser eleita e que ama as criancinhas, os passarinhos, o equilíbrio ecológico e a paz no mundo… O discurso podre da crise do regime democrático, assenta na declaração de que o partido que ocupou anteriormente o poder deixou tudo em tão mau estado que a única solução é pedir novos sacrifícios ao povo.
E, de crise em crise, vamos cededendo terreno à barbárie.

