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A UTOPIA DE THOMAS MANN – por Carlos Loures

Ficai descansados: não vou referir a troca que alguém fez ao atribuir a Montanha Mágica a Thomas More ou a Utopia a Thomas Mann. Vou apenas deixar uma nota de homenagem a este último, prémio Nobel de 1929, por muitos considerado o maior escritor do Século XX.

Foi num dia 6 de Junho que, em Lübeck nasceu Thomas Mann – um alemão que – tal como Goethe, Beethoven ou Bertolt Brecht – destrói as generalizações que às vezes somos tentados a fazer sobre o povo alemão, generalizações abusivas, mas que exemplares como Angela Merkel potenciam. O rigor germânico que em Goethe, Bach ou Thomas Mann, cresce em geniais volutas de harmonia, nos seres menos dotados explode em tiques maníacos e em obsessões aritméticas que conduzem à solução final, orquestrada por Goebbels ou à austeridade cega de Merkel e dos seus apaniguados europeus. Aí temos o esplendoroso rigor germânico, tansformado em forno crematório ou em Banco Europeu de Investimento e em troika…

Falemos de Thomas Mann.

Já aqui tive ocasião de referir o encantamento que rodeou a releitura de A Montanha Mágica, que tinha  lido na adolescência e que por mais de meio século a memória foi mitificando. Contei como temi a desilusão que muitas vezes nos invade quando revisitamos lugares da nossa memória e somos confrontados com realidades medíocres que o tempo foi cobrindo com camadas sedimentares. A leitura que entretanto fui fazendo de outras obras suas, ajudaram a aumentar a expectativa por uma releitura que, por uma razão ou por outra, só veio a concretizar-se há relativamente pouco tempo, motivando o tal texto. – “O Regresso à Montanha Mágica”:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/01/17/um-livro-o-regresso-a-montanha-magica-por-carlos-loures/

Mas fui lendo livros como Morte em Veneza, onde a homossexualidade latente de Mann, ainda que sublimada,  transparece; Os Buddenbrook, que nos permite compreender a Europa que iria ser palco de duas guerras mundiais; As Confissões de Felix Krull, Cavalheiro de Indústria que decorre em boa parte numa Lisboa que apaixona um Felix Krull que hoje diríamos ser bipolar e sem escrúpulos – aquilo a que se chama um tipo pragmático, envolvido numa paixão por uma mulher que odeia o amor.

Milan Kundera disse que, de certo modo, todos os romances são autobiográficos. A obra de Thomas Mann, não podendo considerar-se autobiográfica, traça-nos um mapa do universo rico de contrastes, contradições, que existia dentro deste escritor que nasceu num dia 6 de Junho, há 138 anos. A utopia, a ilha de serena reconciliação connosco, com as nossas limitações – todos procuramos esse território. Alguns, como Thomas Mann, encontram-no. E deixam-nos mapas indicando o caminho. Assim os soubéssemos descodificar.

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