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OS TRABALHOS DE REINHART E DE ROGOFF (R&R) EM DEFESA DAS POLÍTICAS PRÓ-AUSTERIDADE ESTÃO AGORA AINDA MAIS DESMASCARADOS ATRAVÉS DE VÁRIOS OUTROS ESTUDOS ACADÉMICOS. Por JÚLIO MARQUES MOTA

Parte V

(continuação)

Conclusão

E aqui termina o trabalho sobre a desmontagem da tese central dos neoliberais na resposta à crise: mais austeridade sobre mais austeridade. E aqui relembro um comunicado à imprensa emitido por Eurostat:

Desemprego total na Europa a 27 (EU27) e na Zona Euro

 Sobre um ano, a taxa de desemprego aumentou em 18 Estados-Membros e caiu em 9. As mais elevadas subidas foram registradas na Grécia (de 21,9% para 27,0% entre fevereiro de 2012 e fevereiro de 2013), no Chipre (de 11,2% para 15,6%), em Espanha (de 24,4% para 26,8%) e em Portugal (de 15,4% para 17,8%). Os maiores decréscimos foram observados na Letónia (de 15,5 para 12,4% entre os primeiros trimestres de 2012 e 2013), na Estónia (de 10,6% para 8,7% entre março de 2012 para março de 2013) e na Irlanda (de 14,9% para 13,5%).

Em abril de 2013, a taxa de desemprego era de 7,5% nos Estados Unidos (7,6% no mês anterior e 8,1% em fevereiro de 2012).

Desemprego na classe jovem na EU27 e na Zona Euro:

Em abril de 2013, 5,627 milhões de jovens com menos de 25 anos estava no desemprego na EU27 e desses 5,627 milhões de jovens, 3,624 milhões vivem na Zona Euro. Relativamente a abril de 2012, o número de jovens desempregados aumentou 100.000 na EU27 e 188 000 na Zona Euro. Em abril de  2013, a taxa de desemprego dos jovens  atingiu  23,5%  na UE27 e  24,4% na Zona Euro,  contra 22,6% nas duas zonas em abril do ano precedente. As taxas mais baixas em abril do presente ano foram observadas na Alemanha  (7,5%), na Áustria  (8,0%) e na Holanda (10,6%), sendo as mais elevadas na Grécia  (62,5% em fevereiro de  2013), em Espanha  (56,4%), em Portugal  (42,5%) e na Itália  (40,5%).

Vejo estes números e lembro-me do meu taxista e, lembro-me sobretudo do Custo de Nada Fazer, a que passamos a reproduzir um excerto:

Os Estados Unidos estão agora numa situação em que muitos prevêem que será uma recessão muito grave. A turbulência económica deste tipo é susceptível de ter consequências de longo alcance que não estão pois limitadas a um futuro imediato. As recentes estimativas são de que, em resultado da desaceleração económica, cerca de 2,6 a 3,3 milhões de crianças irão cair numa situação de pobreza. Permitir que estas crianças caiam na situação de pobreza irá levar a que se crie um obstáculo significativo a longo prazo para a economia americana. De facto, um acréscimo de 3 milhões de crianças às filas dos “pobres ” significaria uma perda económica global de pelo menos 1,7 milhões de milhões de dólares durante o ciclo de vida dessas crianças. Isso equivale a uma perda anual de cerca de 0,27% do PIB, ou seja de 35 mil milhões de dólares por ano.

Esta análise é baseada em estimativas anteriores dos custos agregados da pobreza na infância, incluindo os efeitos da pobreza infantil relativa à redução dos ganhos durante a vida e aos custos em saúde. Especificamente, os estudos sugerem que as crianças que passam mais de metade da sua infância em situação de pobreza vêm a ganhar, em média, 39% menos que o rendimento mediano. Além disso, uma criança pobre perde cerca de um quarto de milhão de dólares de “qualidade em custos de saúde” ao longo da sua vida. Ao agregar estes efeitos de longo prazo dos milhões adicionais de novas crianças pobres podemos obter uma estimativa inicial dos custos económicos ao permitir que este volume adicional de crianças se venham a tornar em crianças pobres durante esta recessão.

Finalmente, por causa das consequências negativas que resultam da pobreza na infância serem particularmente graves para as crianças que passam um grande número dos  seus primeiros anos em situação de pobreza, é importante investigar se a pobreza induzida pela  recessão  é persistente ou “apenas” temporária. Uma análise dos dados do estudo do painel da dinâmica dos rendimentos revela que mais de metade das crianças que caem na pobreza durante as recessões tendem a permanecer em situação de pobreza pelo menos durante algum tempo  depois do fim da recessão. Na verdade, cerca de um quarto das crianças que sofrem de pobreza induzida pela recessão vai permanecer no mínimo metade do seu tempo de infância restante em situação de pobreza.

Porque a pobreza induzida pela recessão é, pelo menos, bastante persistente entre as crianças, e porque sabemos que o alongamento da situação  de  pobreza durante a infância leva a custos económicos no longo prazo, podemos concluir que existe uma comensurável  vantagem  económica  para agir agora, de modo a evitar que dispare a taxa de pobreza infantil. No fundo, se formos capazes de simplesmente manter a actual taxa de pobreza infantil, a economia americana irá beneficiar no mínimo 1,7 milhão de milhões de dólares durante as próximas décadas.

Relembro ainda os dados globais do Eurostat em que segundo os dados deste organismo havia na EU27 26,588 milhões de homens e de mulheres no desemprego em abril de 2013, cabendo 19,375 milhões há Zona Euro. Relativamente a março de 2013 o número de desempregados teria aumentado na EU27 104.000 e 95.000 na Zona Euro.

Face aos números acima do Eurostat, face ao que nos dizem os autores do relatório, O Custo de Nada Fazer, face à desmontagem feita sobre a tese de R&R, perguntaremos se intelectualmente posições como as de Reinhart, Rogoff, Gaspar, Osborne, Olli Rehn, Wolfgang Schäuble, Jens Weidmann (Bundesbank), Mário Draghi (BCE) e de Cavaco Silva (um economista de profissão), posições publicamente assumidas e defendidas não relevam pura e simplesmente  atitudes criminosas contra a Humanidade, contra a Europa, contra cada um dos Estados membros da Zona Euro,  contra a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Um crime de alta traição diz-nos François Asselineau. Se não é assim, como ignorantes não poderemos a estes senhores chamar, então resta-nos uma outra hipótese, a de estes senhores verem a realidade, não esquecendo  que são eles que a constroem,  como se estejam  perante um circo, onde não há palhaços (a ideia de Miguel Sousa Tavares), mas sim em face de um circo romano onde os cidadãos são lançadas para as feras brutas que se alimentam  apenas de austeridade  e da manipulação.

E do texto anterior onde se analisa e desmonta ao detalhe os trabalhos de manipulação de R&R, relembro uma das conclusões:

“Mas a nossa linha de referência nesta análise, e o pensamento que se pode e deve articular com esta traduz-se no seguinte: tenha cuidado, mas a dívida pública não é em si-mesma condenável. Dívida é apenas dívida”. Esclarecedor, portanto.

Se da América nos vêm estes sinais, não menos elucidativo é a tese agora defendida por Oskar Lafontaine, um artífice do euro que passamos a expor:

A política europeia da Chanceler Angela Merkel está sob crescente pressão. A sua política de austeridade que dominou toda a Europa e que a está a levar ao desastre foi criticada pelo Presidente da Comissão Europeia Durão Barroso, bem como por Enrico Letta, recentemente nomeado primeiro-ministro em Itália pelo Presidente Giorgio Napolitano. Desde há muito tempo que os dirigentes europeus estão perdidos. A situação económica agrava-se mês a mês e o desemprego atingiu níveis perigosos para a democracia.

Os alemães ainda não perceberam que, impulsionados pela crise económica, os europeus do sul (incluindo a França), correm o risco de mais cedo ou mais tarde serem forçados a revoltarem-se contra a hegemonia alemã. Em particular é a política de dumping dos salários, uma verdadeira violação dos tratados desde a origem da política da União Monetária, que os coloca sob pressão. Quando os países que são vítimas desta política se juntarem para forçar a que se dê uma mudança na política anti-crise à custa  da Alemanha, então aí, Angela Merkel vai despertar do seu imobilismo de auto-satisfação.

(continua)
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