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POESIA AO AMANHECER – 222 – por Manuel Simões

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MÁRIO DIONÍSIO

(1916 – 1993)

ARTE POÉTICA

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia

nem no jardim dos lilazes.

A poesia está na vida.

Nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,

nos ascensores constantes,

na bicha de automóveis rápidos, de todos os feitios e de todas as cores,

nas máquinas da fábrica

e nos operários da fábrica

e no fumo da fábrica.

A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,

no vai-vem de milhões de pessoas ou falando ou praguejando ou rindo.

Está no riso da loira da tabacaria,

vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.

Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.

A poesia está na doca,

nos braços negros dos carregadores de carvão,

no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar

– e só durou esse minuto.

A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,

nas rodas dos comboios a caminho, a caminho, a caminho

de terras sempre mais longe,

nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,

na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,

está nos olhos rasgados abertos para amanhã.

(de “Poemas”)

Ensaísta, poeta, ficcionista, crítico de literatura e de arte. Foi um dos autores mais influentes na fundação do neo-realismo, movimento, como se sabe, modelado pelo materialismo histórico. Ficou célebre a sua obra “A Paleta e o Mundo” (1956-1962), bem como as famosas “Fichas” na “Seara Nova”, indispensáveis para compreender a estética do movimento. Como poeta publicou “Poemas” (1941), “O Riso Dissonante” (1950), “Poesia Incompleta” (1966), “Terceira Idade” (1982).

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