Nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos, de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica
e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vai-vem de milhões de pessoas ou falando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
– e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas dos comboios a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos rasgados abertos para amanhã.
(de “Poemas”)
Ensaísta, poeta, ficcionista, crítico de literatura e de arte. Foi um dos autores mais influentes na fundação do neo-realismo, movimento, como se sabe, modelado pelo materialismo histórico. Ficou célebre a sua obra “A Paleta e o Mundo” (1956-1962), bem como as famosas “Fichas” na “Seara Nova”, indispensáveis para compreender a estética do movimento. Como poeta publicou “Poemas” (1941), “O Riso Dissonante” (1950), “Poesia Incompleta” (1966), “Terceira Idade” (1982).