POESIA AO AMANHECER – 63 – por Manuel Simões

Tonino Guerra – Itália

( 1920 – 2012  )

CANTO SEGUNDO

Esta manhã mal saí do portão

parecia-me ter esquecido alguma coisa em casa.

Dois passos até ao damasqueiro

e toca a regressar.

Agora que nada resta para fazer

fico sentado diante da janela

e pergunto-me a mim mesmo: Queres isto? Queres aquilo?

Deitei fogo a páginas de livros, a calendários

e mapas. Para mim a América

já não existe, a Austrália igualmente,

a China na minha cabeça é uma fragrância,

a Rússia uma alva teia de aranha

e a África o sonho de um copo com água.

Há dois ou três dias sigo os passos de Pinela, o camponês,

que procura o mel das abelhas selvagens.

(de “Il Miele”, trad. de Mário Rui de Oliveira)

A sua fama internacional provém sobretudo da sua actividade como argumentista cinematográfico, colaborando com Fellini, Antonioni, Tarkovsky e outros. A sua obra poética, escrita em dialecto romagnolo (da Emilia Romagna) reparte-se por “I bù” (1972), “Il Miele” (1981), “La Capanna” (1985), “Il Viaggio” (1986). Em português podemos dispor de “O Mel” (Assírio & Alvim, 2004), trad. de Mário Rui de Oliveira.

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