JANEIRO DE 2012
MANIFESTO
AFIRMAR A URGÊNCIA E RECONSTRUIR A ESPERANÇA
Não podemos ficar silenciosos. Não podemos ficar inativos. O nosso espírito revolta-se contra a sorte que é hoje destinada à humanidade.
Crise social, crise financeira, crise ecológica, crise democrática… em todos estes domínios, as nossas sociedades aproximam-se dum ponto de rutura, duma situação irreversível.
Após 30 anos de neoliberalismo, após 5 anos de crise financeira, chegámos a um momento crucial. Como escrevem Stéphane Hessel e Edgar Morin (1), “agora, as nossas sociedades devem escolher entre a metamorfose e a morte.”
Em todos os domínios (emprego, democracia, educação, cultura, habitação, saúde, relações Norte-Sul…), numerosas associações, responsáveis políticos eleitos e cidadãos agem, já hoje, com força e inteligência. A razão da criação deste novo Colectivo resulta da urgência em agir rapidamente para evitar o colapso económico. Porque o colapso económico poderá levar ao caos, tornando vãs todas as demais acções empreendidas nos outros domínios.
“O capitalismo vive uma crise suicidária para a humanidade” afirmava já Michel Rocard em 2007 (2). Cinco anos mais tarde, nada mudou. Ou mudou para pior!
Em vez de combaterem as raízes da crise, em vez de mudarem radicalmente um sistema económico que, em 2008, todos diziam querer transformar de cima a baixo, os nossos dirigentes continuaram num processo de fuga para a frente, substituindo a “transfusão” da dívida privada pela “transfusão” de dívida pública (3).
Mas, até quando será possível continuar a fugir para a frente?
“A próxima crise arrisca-se a ser mais grave do que a de 1930” afirmou o Governador do Banco de Inglaterra (4). “É muito provável que a situação venha a ser pior do que a vivida em 2008” escreveu Olivier Blanchard, chefe economista do FMI (5). Ai de nós, os nossos dirigentes parecem estar totalmente fora de combate: tendo sido já incapazes de antecipar a crise do “subprime”, mostram-se hoje incapazes de fazer um diagnóstico claro da situação e, consequentemente, incapazes de apresentar soluções concretas, à altura dos desafios em causa. Tudo se passa como se os comandos tivessem sido ocupados por uma pequena oligarquia, unicamente interessada no no seu futuro de curto prazo.
Seremos nós a primeira geração obrigada não só a renunciar ao progresso social, mas também a aceitar, sem reacção, caminhar para o “suicídio” coletivo? Não. Três vezes não. Mil vezes NÃO. Nós queremos escolher a vida. Eis a razão pela qual nos unimos hoje, na diversidade das nossas gerações e dos nossos percursos individuais, para agir em conjunto no seio do Colectivo Roosevelt 2012.
COMO ROOSEVELT EM 1933
Quando Roosevelt chegou ao poder, sucedeu a Hoover, cuja alcunha era “Do Nothing” (“Fala mas não faz nada”). Os Americanos viviam uma situação extremamente complicada: “14 milhões de desempregados, uma produção industrial que baixara 45 %, em três anos. A América chegara ao fundo do abismo… Roosevelt agiu imediatamente, com uma determinação que reanimou a confiança. A atividade legislativa foi prodigiosa: em 3 meses, Roosevelt desencadeou mais reformas do que Hoover durante 4 anos (6). O processo foi duma rapidez extraordinária: algumas leis foram apresentadas, discutidas, votadas e promulgadas no mesmo dia.”
O objetivo de Roosevelt não foi o de “dar confiança aos mercados financeiros”, mas sim, domá-los. Os acionistas ficaram furiosos e opuseram-se com todas as forças à lei que separara os bancos de depósito dos bancos de negócios, como também se opuseram aos impostos sobre os mais altos rendimentos e à criação dum imposto federal sobre os lucros, mas Roosevelt não cedeu e fez votar 15 reformas fundamentais em três meses. As catástrofes anunciadas pelos financeiros não se verificaram. E a economia americana viveu muito bem com estas regras durante meio século (7).
Evidentemente, o mundo mudou muito desde 1933. Mas os princípios aplicados por Roosevelt mantêm-se perfeitamente modernos: dizer a verdade, falar à inteligência dos cidadãos e agir. AGIR com força!
OLIGARQUIA FINANCEIRA OU DEMOCRACIA SOLIDÁRIA?
“Sob o pretexto de que a democracia exige muito tempo, enquanto que os mercados financeiros decidem todos os dias e estão rodeados de autómatos capazes de efetuar milhares de transações por segundo, é a própria existência da acção democrática que se encontra ameaçada a prazo (8).”
“Aos governos é exigido que se submetam a estes desígnios ou então que cedam o lugar a “peritos”, como já se viu na Grécia e na Itália. Em vez da necessária recentragem no nível político, para permitir enfrentar a sério a regulação dos mercados financeiros, assiste-se à aplicação de programas de austeridade que agravarão a crise social e reduzirão os meios necessários para resolver os desafios económicos. As consequências disto são os riscos de caos económico e social, indutores de riscos de conflagrações e que vem mesmo a calhar às lógicas autoritárias de todo o tipo, a exemplo da crise dos anos 1930. Como então se verificou, depois da democracia será a própria paz que se encontrará ameaçada.”
Não aceitamos que a oligarquia que nos conduziu à crise se aproveite da crise para reforçar o seu poder, tentando fazer-nos acreditar que não há alternativa às políticas de austeridade.
O objetivo do Colectivo Roosevelt é simples: provocar um sobressalto! Denunciar a gravidade da crise e promover o debate democrático sobre 15 medidas que devem ser aplicadas com urgência.
TODOS ATORES, TODOS RESPONSÁVEIS
Se tivéssemos esperado por um acordo entre diplomatas, o muro de Berlim estaria ainda de pé. Em 1989, foram os cidadãos que se ergueram e que derrubaram um sistema politico que negava a dignidade do Homem.
“Cada um de nós pode mudar o mundo. Mesmo se não temos poder algum, mesmo se não temos a mínima importância, cada um de nós pode mudar o mundo” escrevia Vaclav Havel, umas semanas após a queda do Muro.
Em 1989, foram mulheres e homens “sem a mínima importância” que mudaram o curso da história. Vinte anos mais tarde, é a vez do sistema neoliberal estar em colapso. É a nós, cidadãos, que cabe dizer em que sociedade queremos viver: uma sociedade de injustiça e de caos ou uma sociedade de harmonia e de convivialidade?
É a nós que cabe escolher. É a nós que cabe agir.
Se partilha o nosso desejo de provocar um sobressalto, pedimos-lhe que assine e divulgue para assinar as nossas “15 Propostas”, apresentadas em:
(1) Le chemin de l’espérance, Fayard, Outubro de 2011
(2) Le Parisien, 25 de Agosto de 2007
(3) A imagem é de Joseph Stiglitz, Prémio Nobel de Economia
(4) Mervin King, Sky News, 6 de Outubro de 2011
(5) Blog do FMI, 21 de Dezembro de 2011
(6) René Rémond, Histoire des États-Unis, PUF
(7) Não há dúvida que o que Roosevelt fez em matéria social não foi suficiente (sem o ataque a Pearl Harbor e a economia de guerra, os Estados-Unidos teriam entrado em recessão), mas as reformas realizadas em matéria fiscal e bancária atingiram plenamente os seus objetivos.
(8) Texto comum adotado por numerosas organizações da sociedade civil na véspera do fórum cívico organizado em Grenoble, nos finais de Janeiro de 2012.
