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FUTEBOLANDO – DAVID OISTRAKH E EUSÉBIO – por Carlos Loures

Um dos objectivos desta série de crónicas é demonstrar que não existe incompatibilidade entre futebol e cultura – tarefa difícil e, sobretudo, dificultada pelo primarismo cultural da grande maioria dos agentes desportivos. Presidentes dos maiores clubes, dirigentes, alguns jogadores, demonstram um tal desprezo pela cultura e uma tal prevalência dos sentimentos mais baixos que é perfeitamente normal que haja quem não goste de futebol. Por outros motivos, mas sobretudo por esse – pelo tipo de gente que nele intervém. É tão normal gostar como não gostar.  O que já é menosImagem1 normal é que se transforme esse sentimento de indiferença por um jogo num emblema de superioridade intelectual. Sabendo-se que homens como Albert Camus, Jean Cocteau, Picasso, Jean-Paul Sartre, foram adeptos do futebol, esse elitismo torna-se sumamente ridículo. Albert Camus, Prémio Nobel da Literatura – não só amava o futebol como integrou a equipa do Racing de Argel. Uma tuberculose interrompeu a sua carreira de futebolista profissional. Mas o interesse pela modalidade acompanhou-o pelo resto da vida. Talvez uma futura crónica lhe seja dedicada. Separar a beleza do jogo da hediondez dos negócios que à sua sombra se tecem. Hoje falarei de um grande violinista – David Ostrakh – e da sua admiração por um grande futebolista – Eusébio.

Tinha, em tempos, sido apresentado ao reputado musicólogo João de Freitas Branco. Quando na editora nos envolvemos num projecto de uma grande obra relacionada com a História da Música, logo sugeri o seu nome para o dirigir, tanto mais que uma das poucas histórias gerais da Música editadas entre nós era de sua autoria.

Numa conferência na Gulbenkian, vendo-o entre a assistência, sentei-me no lugar atrás do seu. E num intervalo propus-lhe a direcção da obra. Para conversarmos sobre o assunto combinámos um almoço para a semana seguinte. Nesse almoço de trabalho, por sugestão de Freitas Branco, veio também o maestro Ivo Cruz. Refira-se que o Dr. João de Freitas Branco era director do Teatro Nacional de São Carlos e Ivo Cruz maestro da Orquestra do teatro. Almoçámos no restaurante Belcanto, no Largo de São Carlos. Durante esse almoço de trabalho, Freitas Branco contou-me um episódio muito curioso ocorrido durante a vinda a Lisboa do grande violinista ucraniano David Oistrakh, que na altura era considerado o maior executante do mundo, sobretudo de compositores do repertório russo contemporâneo.

Logo após a chegada e a recepção protocolar, Oistrakh chamou Freitas Branco de parte e pediu-lhe para lhe arranjar maneira de ir ver o Eusébio jogar. Embora surpreendido pelo inusitado pedido, o maestro contactou o presidente do Benfica e logo foi disponibilizado um camarote para Oistrakh e Freitas Branco. Diz-se que, no final do concerto, o grande violinista não agradeceu pela segunda vez os aplausos do público do São Carlos, para poder chegar rapidamente ao estádio. No final do jogo (com o Atlético) em que Eusébio marcou um golo magnífico, David Oistrakh foi ao balneário cumprimentar o jogador.

Acrescento que Freitas Branco, adepto do Benfica, ao tomar conhecimento do volume de trabalho que a direcção da obra acarretava, numa segunda reunião no seu gabinete do teatro, disse-me que, com muita pena sua, não podia encarregar-se da direcção da obra. Mas indicou-me alguém que iria aceitar a responsabilidade – o Inspector Humberto D’Ávila. Adepto do Belenenses.

Sobre o concerto em São Carlos, o grande escritor José Gomes Ferreira escreveu um interessante poema, que vem publicado no 2º volume de Poeta Militante (Não, não deixes secar/este fio de água de violino/que nas manhãs de ouro/completa as nossas sombras com flores -/ enquanto os pássaros de sementes nos olhos/procuram na espiral dos voos/outro cárcere de recomeço.). A leitura deste belo poema de Gomes Ferreira encerra a crónica de hoje e estabelece ligação com a da próxima semana na qual falaremos novamente de futebol na poesia.

Ilustração: desenho de Dorindo Carvalho

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