(Conclusão)
Salazar regurgita
Falemos de vómito. Na ditadura, Paula Rego pintou Salazar vomitando a Pátria. No presente quadro, sentimos vontade de vomitar os restos ou as regurgitações do salazarismo e dos Novos Secretariados da Propaganda. Ler, ver e ouvir o mesmo ou o idêntico começa a causar um fastio de morte, estilo nausée sartreana, mal du pays. Estão a tornar-se impróprios para alimento humano os noticiários e os comentários padronizados, os entretenimentos primários, os atentados à Pátria de Pessoa. Os chefs desta ementa são recrutados pelo bureaueconómico-político. Compete-lhes manter a pax mediática. Há que reconhecer: têm tido êxito a fabricar dependentes do rendimento cultural mínimo e do rendimento eleitoral máximo. No entanto, até entre os fidelizados, corre uma percepção de enfado: dizem sempre o mesmo, dão sempre a mesma coisa. As manifestações de enjoo são idênticas às dirigidas aos parceiros do poder central: são todos iguais. Daí até o grosso dos consumidores se consciencializar da sua condição (antropológica, histórica, social, classista) vai uma persistente didáctica. Que dificilmente se ministrará sem uma ruptura de modelo.
Todas as armas
Não dispõe este exilado de meios para constitucionalizar as indústrias de mensagens, cada vez menos distinguíveis das indústrias de massagens. A viragem programática pressupõe uma outra agenda de valores e um suporte material compatível. Apesar da desproporção de meios, cumpre-nos rebater os centros comerciais mediáticos, ampliando a oferta democrática, introduzindo novas cores na paleta sistémica. Os administradores da informação e do entretenimento não alteram a agulha sem entrar em campo um agente histórico empenhado noutros conteúdos, noutras linguagens, noutras embalagens. Para tal, há que reactivar e renovar o formulário de resistência e alternativa. Teremos de optimizar os recursos da guerra popular prolongada: maquis electrónico, imprensa de trincheira e da linha da frente, editoriais de rua, editoras de nicho, faixas de desfile, folhas volantes, panfletos esvoaçantes, caixas do correio, debates de tertúlia, agitações de assembleia, bandas de megafones, tempos de antena, o que mais a imaginação discorrer, a situação sugerir, a tesouraria consentir. Há que deitar mão a todas as armas. A ironia, por exemplo, não requer grande taxa de esforço patriótico. Procuremos sensibilizar algumas entidades escrutinadoras, reguladoras, fiscalizadoras. Para acudir à Pátria, abarrotada de exilados e carecida de alimentação saudável, o Barómetro Marktest poderia medir os indicadores de repugnância, enriquecendo as teses de doutoramento e os congressos de nutricionismo; a ERC deveria enviar, com carácter de urgência, amostras de víveres ao Instituto Ricardo Jorge; a ASAE deveria entrar de rompante nas empresas de artigos contrafeitos, muitos fora de prazo, talvez do tempo da outra senhora. O denunciado é mais pernicioso do que a venda de cavalo por vaca e peixe-caracol por bacalhau.
EUA/UE
Como curar o mal du pays? Haverá alguma estância para doenças hepatomediáticas? Onde procurar a verdade dos manuais? Junto de Assange, Manning e Snowden, derradeiros jornalistas de investigação do auto-intitulado Mundo Livre ? Subsistirá algum recanto seguro para os mensageiros audazes e honrados? EUA e UE são centrais de géneros avariados, de informação subprime. Basta folhear um newspaper ou sintonizar os satélites: teremos de andar com potentes lupas, radares e projectores em busca da objectividade prometida e da pluralidade perdida. Pouco haverá a esperar dos maiores fabricantes e distribuidores de lixo celulósico e hertziano. Mesmo que disfarcem com tecnologias de ponta e cantilenas de rights and liberties os seus programas de liquidação de conquistas civilizacionais e de redução de cabeças. [6] De maneira que urge recolocar a eterna questão: Que fazer? [7]
Eis o testemunho de um ex-aquartelado, actual infoguerrilheiro.
Para que conste.
Na rede.
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1. Pátria, Lugar de Exílio , Daniel Filipe (1925 – 1964). Edição do Autor, sobrecapa de Pilo da Silva, 1963, Lisboa. Despacho da Direcção-Geral da Informação: Trata-se de uma colectânea de poemas do género “revolucionário”, escritos em 1962, que pretendem ser um grito contra a opressão em que se vive no País, sob o medo das balas e dos carrascos. (23/03/1972). Proibição de circular: ordem nº 100 – DGI – GE (27/03/1972). Interessante o auto de denúncia transformado em autodenúncia e a sanha persecutória nove anos após a saída do livro. Na verdade, achava-se esgotado. O inquisidor não deixava contudo de fazer doutrina expurgatória. A segunda edição apenas viria à luz depois da Revolução de Abril: Editorial Presença, 1977, Lisboa.
2. Paula Rego, Salazar a vomitar a Pátria , óleo s/ tela (94 x 120 cm), 1960, Col. Fundação Calouste Gulbenkian.
3. Almeida Garrett (1799-1854). Escritor, pedagogo, diplomata, lutador de pena e armas na mão. Exilado em Londres e Paris por diversas vezes, entre 1823 e 1931. Viveu períodos de clandestinidade. Participou no Desembarque do Mindelo com as tropas liberais e no levantamento do Cerco do Porto (1832-1833).
4. Egas Moniz (1874-1955). É-lhe atribuído o desabafo: Vivo exilado na minha pátria. Investigador, neurocirurgião, republicano. Em 1945, foi galardoado com o Prémio de Oslo, graças à descoberta da Angiografia cerebral (1932); em 1949, recebeu o Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina como reconhecimento pela Leucotomia pré-frontal (1935). Nos meios oposicionistas correu durante muitos anos o remoque de Salazar ao saber que Egas Moniz fora laureado: Então já temos um Meio Prémio Nobel! O certo é que a Imprensa, uma alinhada, outra amordaçada, exceptuando o jornal República, foi parca em notícias e vibrações. O ditador quis achincalhá-lo, sob o pretexto de haver partilhado o Nobel com o suíço Walter Hess (1881-1973). Critério recorrente nos domínios da medicina, física, química, paz. A alergia do homo santacombensis pelos avanços científicos (práticos e conceptuais) de Egas Moniz já havia sido patente no arrumo do livro A vida sexual (fisiologia e patologia) na lista negra, apesar de ser uma versão da tese de doutoramento e das provas de concurso para professor universitário. A primeira edição da Fisiologia é de 1901, a da Patologia é de 1902, com chancela da França Machado-Editora, Coimbra. Sucederam-se 20 edições até 1933. A Livraria Ferreira, da capital, fez sair dezenas de milhares de exemplares. Até que o regime de Deus, Pátria e Família diabolizou a obra. Os editores desinteressaram-se do best-seller. Ventura Landesma Abrantes (1883-1956), amigo de Egas Moniz, que fazia pontes com membros do Governo, conceituado agente cultural (fundador da Oliventina, da Casa Editora Ventura Abrantes, da Feira do Livro de Lisboa (1931), representante português nas exposições livreiras de Sevilha, Barcelona e Florença), voltaria a dar à luz o tratado científico. A ditadura passou a tolerar A Vida Sexual , com a devida prudência: mediante receita médica.
5. Poboo meudo, arraia meuda . Caracterização medieval das camadas desfavorecidas. Alusão a levantamentos populares. Fernão Lopes (1380-1460): Crónica de D. Pedro I, Crónica de D. João I.
6. O Der Spiegel descreveu a administração Obama como “totalitarismo soft” . ( The Guardian , John Pilger, 04/07/2013).7. Que fazer?, Vladimir Ilitch Lénine (1870-1924). Primeira edição em russo: Editorial Dietz, 1902, Estugarda. Obra divulgada no Ocidente sobretudo através das Éditions en Langues Etrangéres, 1941-1954, Éditions du Progrès, 1962, Moscovo, Éditions du Soleil, 1966, Paris. Em Portugal, Que fazer? integrou as Obras Escolhidas , tomo I, Editorial Avante!, 1977, Lisboa. No Brasil, há a edição Hucitec, 1988, São Paulo.Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
