COMEMORAÇÕES DA REPÚBLICA – Fantasmas do Centenário – 3 – por César Príncipe

 

 

PERÍODO SALAZARISTA

 

Filho de António Oliveira e Maria do Resgate, camponeses, António de Oliveira Salazar foi seminarista, professor, deputado, ministro das Finanças, ministro dos Negócios Estrangeiros, Ministro das Colónias, Ministro da Guerra, presidente do Conselho. Como chefe do Governo tutelava os restantes órgãos políticos, policiais, militares, administrativos. Já Sidónio dispensara os ministros. Salazar tolerou-os para repartir tarefas absorventes e manter aparências de colegialidade. Paulo Rodrigues ilustrou lapidarmente o estatuto de ministro: eu apenas sou a caneta de Salazar. O presidente da República,Supremo Magistrado da Nação, foi reduzido a criatura de aparato. Castraram-no e puseram-lhe uma etiqueta: Venerando Chefe de Estado. Salazar depressa verticalizou e usurpou funções e decisões. Na fase de se mostrar aos caçadores de talentos, dramatizou a retórica, elencando imperativos para meter a República nos eixos. Os círculos empresariais e clericais consideram-no o homem certo para operar a transição da ditadura militar para a ditadura civil.

 

O empertigado lente usava botas de campónio e exibia borlas. A nata do conservadorismo jogava nas virtudes da submissão das organizações e das pessoas. Tinha, no entanto, aprendido com o desfecho sidonista. Ao contrário de Sidónio, militar e professor, Salazar encenava a separação dos dois poderes, a abertura de um ciclo da normalização, falando de cátedra para a sociedade, após o pronunciamento das casernas: se soubesses quanto custa mandar, antes preferirias obedecer toda a vida. Com esta filosofia de Estado, verdadeiro RDC/Regulamento de Disciplina Civil, impôs a fábula de predestinado, que Cardoso Pires reduziu a Dinossauro Excelentíssimo. 

A cobertura legalista culminou com o embuste da Constituição de 1933. No rasto do ditador de Caminha, que personificou aRepública Nova, o ditador de Santa Comba personificou o Estado Novo, inspirado na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler. Salazar decretou três dias de luto em honra do führer. Salazar convivia diariamente com a fotografia do duce na secretária. Salazar fez diversos exercícios de mão estendida. Na vigência deste regime policial-confessional, foram suspensas as principais liberdades e garantias; encarcerados dezenas de milhares de cidadãos, centenas em campos de concentração, dezenas assassinados; outros deportados ou exilados; muitos saneados da administração Pública ou despedidos das empresas por pressão da polícia política e da política do Estado Policial. A ditadura apostou na miséria controlada, na ignorância planificada, na propaganda massiva, no terror selectivo, no medo difuso. 

Estabeleceu, também, como prioridade ideológica, a celebração da Concordata e do Acordo Missionário com a Santa Sé, retomando o conúbio interrompido pela legalidade laica. Reservou assento na Assembleia Nacional à barretina cardinalícia. O patriarca desempenhava um papel na cenografia do poder. Estado e Igreja tornaram-se parceiros da Domesticação Social/ Política do Espírito. A ditadura, sustentada no tripé económico-financeiro, religioso-propagandístico, militar-policial, impôs o condicionamento mental e industrial, protegeu meia dúzia de grupos/ famílias, conteve a educação média-superior, deixou afundar o país na crise social, na emigração clandestina, na guerra colonial.

 

O regime, que começou por se auto-exaltar como regenerador das finanças públicas e restaurador da credibilidade externa, terminou com 45% do orçamento sorvido pelo problema africano, fazendo de Portugal um estado-pária, orgulhosamente só. Supostamente só também vivia o ditador, mas, de facto, na órbita de uma governanta enciumada e rude. O falso misógino, apresentado como casado com a Pátria, terá sido também um abocanhador de esposas de viris membros do Governo, de viúvas em transe patriótico, de meninagem de orfanato e de bem. Se SP/Sidónio Pais fora vendido como macho-modelo, galã-botifarra, devoto de Aparições da Virgem, OS/Oliveira Salazar conseguiu adaptar o Direito de Pernada, cuidando de pôr o Secretariado de Propaganda a vender Deus, Pátria e Família aos tementes de Deus, devotos da Pátria, defensores da Família. 

Regressemos, porém, a outras tramas, ao epílogo da História. Sidónio tombou às mãos de um pistoleiro. Salazar estatelou-se, sem o amparo de uma cadeira, no Forte de Santo António, em 1968. Eis o maior milagre antonino: uma cadeira cometeu um atentado. Crime onomástico. Um antónio ajustou contas com outro. O enviado de Deus sofreu um hematoma intracraniano subdural, jamais se restabelecendo, não cedendo o hematoma à vaga de preces, intervenções cirúrgicas, conferências de sumidades. Com a Revolução de Abril, a efígie, que havia decorado milhares de paredes, ao lado do crucifixo, foi removida. Após intermitentes ensaios de reactivação do culto, a RTP abriu um processo de beatificação em 2007. A estação de 5 de Outubro, Televisão do Estado Republicano, colocou o maior pervertor da República a plebiscito. Os Grandes Portugueses foram a jogo. A lógica das telecomunicações fez o resto. O Excelentíssimo bateu todos os poetas, santos e heróis. Título à altura de quem liderou um Império e deu lições ao mundo. 

Tentemos, porém, olhar Sua Excelência com alguma distância. Quem, de facto, em 838 anos de Monarquia e 100 anos de República, mereceria o galardão? Cumpre ao Estado, pacificada a celeuma, um gesto definitivo: acabar com o arrastamento da polémica do Museu de Salazar. Aproveite-se o frémito ou o rescaldo das comemorações. Baixemos a tensão política. Cultivemos o sentimento reparador. Demos lugar à magnanimidade da Ideologia e à objectividade da Paleontologia. Salazar foi categórico: Sei muito bem o que quero – e para onde vou. Respeitemos à letra a divisa e a determinação. Um homem providencial nunca se engana. Encarreguemos das honras fúnebres uma empresa de eventos do Novo Estado. Traslademos o Grande Português, homo santacombensis, para o Museu da Lourinhã. O próximo 10 de Junho seria uma data de consenso, copiada que foi do Calendário Salazariano. Milhões de potenciais telespectadores sufragariam o préstito. A comunidade científica rejubilaria com um congresso internacional sobre fósseis. O cerimonial ocuparia a agenda mediática.

 

Durante meio ano, a Democracia deixaria de importunar a governação. Viveríamos em Necrocracia. Até os 800 mil desempregados teriam uma oportunidade, cumprindo Serviço Cívico: ladeando o cortejo, batendo palmas a recibo verde, agitando a bandeira que sai à rua nos desafios de futebol, cantando o Hino dos Egrégios. O Último Enterro do Excelentíssimo daria um argumento a Manoel de Oliveira e um Leão de Ouro em Veneza. Igualmente seria de instituir um Prémio de Pintura e Escultura, tendo por mote Paula Rego: Salazar vomitando a Pátria ou A Pátria vomitando Salazar. 

 

 A seguir – período spinolista

 

 

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