Era o título de um filme português realizado em 1985 por Pedro Martins com guião de Henrique Santana – “Aqui há fantasmas!”. E há. Por “aqui” entenda-se não o blogue, mas o país e o seu mundo circundante. Antero de Quental na sua conferência Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, situava no catolicismo a principal causa dessa decadência. Antero exaltava o carácter revolucionário do cristianismo sufocado e adulterado pelas transformações que o concílio de Trento lhe imprimiu e culpava as monarquias peninsulares por uma expansão colonial desumana. Talvez sobrevalorizasse a colonização britânica ao considerar que ela tinha como objectivo o desenvolvimento dos territórios. Mas a matriz reaccionária do catolicismo é indesmentível e o seu fantasma ainda está por aí.
Em Belém nós temos um produto acabado do salazarismo catolicão, um ser astuto que parece ter surgido por encomenda de uma classe política que, com um presidente que levasse a sério a Democracia, teria graves problemas. Aqui ao lado, o chefe de Estado foi um dedicado servidor de Francisco Franco. De notar, que existe uma Fundação com o nome do velho ditador, fundação que se permite pôr em juízo um escultor que num trabalho seu lesou, segundo a tal fundação, a imagem de Franco. A imagem de um militar que lançou o Estado numa guerra fratricida, como pode ela ser lesada?
Voltando a Portugal e aos seus fantasmas, ontem a presidente da Assembleia da República ao mandar a PSP expulsar das galerias cidadãos que se manifestaram ruidosamente, citou Simone de Beauvoir – «não podemos permitir que os nossos carrascos nos criem maus costumes» E esclareceu depois que se tratou de uma «metáfora» para os «elementos de perturbação». «Carrasco significa qualquer elemento de perturbação» (…)«Significa que quando as pessoas nos perturbam, não devemos dar atenção», explicou aos jornalistas. Quanto à possibilidade de fechar as galerias da AR ao público, disse que «se calhar faz sentido repensar o modelo» de participação dos cidadãos nos trabalhos parlamentares». Todos temos os nossos fantasmas de estimação – par uns é o espírito do salazarismo católico e reaccionário ou o nacionalismo fascistóide de Franco, que os assombra. Para outros, são os cidadãos que clamam pela Democracia no templo da Democracia que encarnam esses fantasmas, esses elementos de perturbação da ordem. Aqui há fantasmas para todos os gostos.