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DIGNIDADE – por José Goulão*

*Analista de política internacional, intervindo na imprensa, na rádio e na televisão.

A resposta do Estado brasileiro aos insultos cometidos pelos Estados Unidos da América através das acções de espionagem contra os seus principais dirigentes foi exemplar. O presidente dos Estados Unidos vai ter que dar contas dos crimes cometidos pelos seus agentes e teve que assumir perante a presidente do Brasil o compromisso de que investigará pessoalmente o assunto e fornecerá explicações. Vindos de quem vêm, estes compromissos pouco valem, mas já se percebeu que os dirigentes brasileiros não estão para brincadeiras e não largarão o tema.

Esta atitude brasileira, para alguns “um desafio”, para a comunicação “mainstream” uma atitude ousada e dissonante quando comparada com a complacência da Alemanha e respectivos súbditos da União Europeia, qualifica-se através de uma palavra única: “dignidade”.

O Brasil de hoje revelou no assunto, e mostra em termos gerais, uma enorme dignidade na defesa da sua soberania, coisa que muitos dirigentes de muitos Estados consideram ser um estorvo da uniformização burocrática e autoritária imposta pela mundialização, a qual poderia muito bem ser representada em termos de imagem – veja-se a ironia das coisas – por um desfile solene do exército da Coreia do Norte.

O Brasil de hoje tem vida própria, tem existência real no mundo, tem uma atitude independente e também solidária e cooperante, como muitas vezes o demonstra, principalmente, nas relações com os seus vizinhos.

Mais do que o crescimento económico, talvez seja esta a verdadeira imagem de marca do Brasil moderno.

Um Brasil cheio de problemas, de injustiças, de corrupção e outros problemas que tanto afectam as sociedades, das mais pobres às mais desenvolvidas. Atente-se no comportamento da maior potência mundial perante o resto do mundo e dêem-se aos outros problemas as verdadeiras dimensões na escala do desaforo.

Um Brasil que, no entanto, deu um enorme passo em pouco mais de trinta anos, desde que as ditaduras militares deixaram de aperrear tanto a capacidade criativa da sociedade brasileira como o seu direito à soberania e à dignidade, sobretudo perante o arrogante e ameaçador vizinho do norte. E também desde que a direita colaboracionista e puramente neoliberal perdeu o direito de governar ao nível federal.

Muito se fala da realidade económica brasileira, do seu crescimento que atingiu picos extraordinários, do desenvolvimento de uma classe média  criativa e desenvolta, da elevação dos rendimentos mais baixos, do aumento do investimento interno e externo.

Sabemos como o crescimento económico não significa, em si mesmo, justiça e progresso social, reconhecimento completo dos mais elementares direitos humanos, combate à indigência, à pobreza e à exclusão social.

O Brasil é também um exemplo dessa asserção. O passo em frente que deu é grande, mas muito pequeno em relação ao que é necessário dar. O Partido dos Trabalhadores, há três mandatos na Presidência, deixou-se arrastar pelo chamado pragmatismo do poder, como se viver num mundo neoliberal implicasse cedências sem remissão à economia neoliberal. Isto significa que o Brasil económico, mesmo o do Partido dos Trabalhadores, é um Brasil muito aquém do social que os brasileiros exigem e merecem. Isto significa ainda que o poder no Brasil não sacudiu a canga da corrupção, não estilhaçou a fronteira entre a faustosa classe política e os cidadãos. É tudo uma questão de tempo, dir-se-á, o que infelizmente não cola. O pragmatismo governativo, acarinhando a economia como se ela existisse apenas para si mesma, implica perda de tempo e destruição de oportunidades na transformação do crescimento e desenvolvimento económicos em maior justiça social, mais respeito pelos direitos e condições de vida dos cidadãos.

Por isso os cidadãos reagem, manifestam-se, dizem ao poder, de maneira pacífica e democrática, o que está mal e o que pretendem. O faraonismo da organização em apenas dois anos do Campeonato do Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos implica investimentos e actividade económica, mas levanta sérias dúvidas quanto às vantagens sociais do retorno sobretudo num quadro opaco e de corrupção. Por isso os brasileiros se interrogam pacificamente nos lugares que lhes pertencem, as ruas e as praças. Dessas acções populares a comunicação social neoliberal prefere destacar os focos de violência, nos quais será fácil detectar a mão dos pescadores de águas turvas, se calhar orientados não pelo bem estar dos cidadãos mas sim pelos interesses dos que estão inquietos com as afirmações soberanas do Brasil.

Os governantes brasileiros de hoje têm revelado capacidade para escutar as mensagens. Não basta, mas rompem com um passado de autismo e repressão de que o Brasil parece hoje tão afastado.

Há um imenso caminho a percorrer. A noção de soberania nacional é, porém, um bom veículo para enfrentar esses trajecto. Pobres dos países que dizem fazê-lo sem saberem quem são, às quantas andam nem para onde vão. O Brasil, felizmente para os brasileiros, não é um deles.

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