POESIA AO AMANHECER – 284 – por Manuel Simões



JOSÉ EMÍLIO-NELSON
( 1948 )
ROMAN PHILOSOPHIQUE (1)
Conheci um homem que quando começava a pensar «perdia a cabeça».
Eleva-a pelos ingénuos azuis do céu (… se os pensamentos fossem
grandes pensamentos).
A cabeça estatelava-se ao pensar coisas rasteiras. As pernas rodopiavam
no seu descaramento, por si próprias, pensando pela primeira vez.
A cabeça teimava em pensar por si,
E como o pensar tem altos e baixos,
O homem empalidecia, esvaziava-se até entrar numa letargia.
Ao adormecer visitava-o o mesmo pesadelo que o revelava perpetuamente
ligado ao corpo inerte (que «só assim lhe obedece»).
E com tanto pensamento medíocre a cabeça mirrou.
Cabeça mirrada num corpo obediente: o homem soergueu-se e
Jurou não mais pensar para «preservar a obediência».
(de “Bibliotheca Scatologica”)
Economista e poeta. Da sua obra poética: “Polifonia” (1979), “Noite Poeira Negra” (1982), “Extrema Paixão” (1984), “Queda do Homem” (1988), “Claro Escuro ou a Nefasta Aurora” (1992), “O Anjo Relicário” (1999), “Arabesco” (2003), “Bibliotheca Scatologica” (2007).