A TVI, a SIC e a RTP decidiram não proceder à cobertura das campanhas eleitorais autárquicas. Como não podia deixar de ser, para o fazerem alegaram razões financeiras, falta de meios para cumprir o que a lei e a Comissão Nacional de Eleições – CNE determinam: cobrir igualmente as diferentes candidaturas devido ao elevado custo resultante. Alegam que as candidaturas são muitas e que nunca conseguirão atingir aquela meta. Assim, adoptam o critério zero: não vão fazer a cobertura das campanhas eleitorais autárquicas. Reclamam uma revisão da legislação vigente, e que sejam definidos critérios editoriais que permitam uma igualdade de tratamento de todas as candidaturas. Para além disso, querem convencer-nos de que não combinaram previamente entre si tomar esta atitude.Ver:
http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=1&did=121468
As televisões, primeiro, suspenderam os debates entre os candidatos, e agora desistiram de transmitir reportagens sobre as acções das campanhas, como comícios, arruadas, etc. Mas será que assim vai ser alcançada uma igualdade ao nível zero entre as várias campanhas, no que respeita à cobertura televisiva? De modo nenhum.
É elementar reconhecer que a realidade geral do país, os problemas políticos nacionais, vão pesar nos resultados das autárquicas. E que os debates ao nível nacional vão continuar a aparecer nas televisões, assim como reportagens sobre a actuação do governo nos vários campos da sua acção. O primeiro resultado deste boicote das empresas de televisão às campanhas eleitorais para as autárquicas vai ser assim favorecer os partidos do governo que não vão com certeza desdenhar esta benesse. Os pequenos partidos e os movimentos de cidadãos vão desaparecer do pequeno ecrã. Os maiores partidos da oposição, incluindo o PS, também não sairão beneficiados. Quem também vai beneficiar com esta posição dos patrões do pequeno ecrã vai ser a abstenção.
Para ocorrerem mudanças significativas na vida política portuguesa são necessárias muitas coisas, e a principal é sem dúvida uma participação cada vez maior dos cidadãos a todos os níveis. As restrições impostas à comunicação social são um obstáculo muito grande a essa participação, e desequilibram ainda mais a relação entre as várias forças candidatas a qualquer eleição. O problema sente-se mais nas eleições autárquicas, que são assim transformadas num apêndice dos restantes processos eleitorais, sobretudo nos grandes centros. Aspectos como a possibilidade de um maior conhecimento dos candidatos por parte de quem neles vai votar ou não, e uma discussão mais aprofundada dos programas propostos e das realizações que aqueles declaram terem efectuado, essenciais nas eleições locais como nas restantes, ficam muito prejudicados por esta restrição. E não se vê que a imprensa e as poucas televisões locais possam colmatar esta falha. É mais uma vez a democracia que é prejudicada.


