
Estamos em ano de eleições autárquicas e, como julgo natural, o tema vai sendo introduzido nas conversas do dia-a-dia. No entanto, penso haver um tema que merece um debate público urgente, relativo à possibilidade de, para as autarquias, grupos de cidadãos eleitores poderem apresentar listas concorrentes aos vários órgãos autárquicos de qualquer Concelho, as vulgarmente chamadas listas de independentes.
Esta possibilidade tornou-se um facto apenas com a revisão da Constituição de 1997, ficando o n.º 4, do Artigo 239º (Órgãos deliberativos e executivos), com a seguinte redacção:
As candidaturas para as eleições dos órgãos das autarquias locais podem ser apresentadas por partidos políticos, isoladamente ou em coligação, ou por grupos de cidadãos eleitores, nos termos da lei.
Confesso ter ficado, na altura e apesar do longo tempo decorrido após o 25 de Abril, muito agradado com o que me pareceu ser um aprofundamento da democracia no nosso país e com a esperança renovada de ver tal possibilidade estender-se às eleições legislativas. Mas a ingenuidade com que facilmente acreditamos nas boas intenções dos proponentes de alterações positivas impede-nos de, na maior parte das vezes, olhar mais profundamente sobre as consequências, ou seja, não pensamos que as boas alterações podem não impedir o aproveitamento perverso que a lei não acautelou.
A alteração da Constituição teve aplicação nas eleições autárquicas de 2001 e, antes de referir a perversão que pretendo abordar, vou relatar um facto recente, relacionado com uma proposta que um amigo me fez há dias, feita, não tenho qualquer dúvida, com a melhor das intenções. Propôs esse meu amigo que eu me candidatasse a Presidente da Assembleia Municipal do meu concelho preferido por uma lista de cidadãos independentes. Respondi assim:
«Agradeço a sua atenção e as suas amáveis palavras; no entanto, no meu projecto de vida não está ser candidato a qualquer Autarquia ou qualquer outro cargo político. Por muito estranho que possa parecer, continuo militante do PS e considero que, se estivesse no meu horizonte candidatar-me a qualquer cargo político -o que sempre recusei no PS-, teria de me desvincular com pelo menos um ano de antecedência, claramente antes de se iniciar a escolha dos candidatos pelo PS.»
