
A madame Faës, très chère amie.
II
Durante três anos aquela loja esteve atulhada de ingleses. Desfilaram por ali vários corpos de exército e inúmeras divisões. «Mais les anglais, ce n’était pas ça!» Pouco amigos de conversar… «Bonjour, madame! Avê-vô papier à lettres? Au rovoir, madame»… E toca de se safarem em bicicleta, ou em cavalinhos de papelão lustroso, com corda branca ao pescoço.
Os portugueses são outra coisa. Três francos de despesa são quatro horas de conversa, é um namoro logo pegado com as pequenas que ajudam à venda; e enquanto uns põem em revolução o caixote dos postais ilustrados, outros invadem o armazém pegado, outros instalam-se na saleta familiar e tocam piano, outros ainda enfiam pela cozinha sem cerimónia. Estamos em nossa casa; e madame Faës, como aqueles ases do xadrez que jogam cinco partidas a um tempo, mantém oito conversas, vendendo a um uma caneta de tinta permanente, dois lápis de cor a um segundo, lâminas Gillete a este, um romance de Willy àquele, enquanto indaga da saúde da família de um recém-chegado.
Todos nós para ela somos notáveis, e penhora-a profundamente ter conhecido e sido amiga dos grandes homens deste pequeno país. «Disseram-me ontem que o senhor era dos primeiros escritores de Portugal…» «Já sei que trato com um dos grandes poetas portugueses». «Constou-me que o meu caro tenente era o primeiro cavaleiro da sua terra». «Ao que parece, o coronel que acaba de sair é um dos mais notáveis dos vossos oficiais»… Todos para ela têm uma virtude e uma qualidade: um porque toca valsas no piano com dois dedos da mão direita, o outro porque presume de ser caricaturista, este porque agrada a todas as raparigas, aquele porque tem um bonito cabelo, o capitão porque é valente, o tenente porque usa monóculo, o alferes porque imita o gramofone com dois sous metidos na boca.
Para os mais íntimos há sempre naquela casa uma chávena de chá pela tarde, um fogão aceso no Inverno e uma poltrona na salinha, enquanto sobre o teclado correm uns dedos ágeis tocando «Sur les bordes de la Tamise» ou conduzindo o coro da célebre valsa…
Malgré tes serments, tes promesses…
Malgré tes baisers, tes caresses…
Tu partis un jour…
a valsa que algumas hão de chorar, quando nós partirmos un jour…
Há mesmo no primeiro andar um grande quarto de amigos com uma cama esplêndida, onde têm a certeza de dormir os que chegam a desoras e encontram fechados a Clef d’Or ou o Hotel de Inglaterra.
Na estante dos livros há sempre livros portugueses; e um dia em que eu ironicamente aconselhava à Madame que mandasse vir dos seus fornecedores de Portugal alguns exemplares do Manual de Civilidade, ela, com o seu eterno sorriso, atalhou:
̶ Pourquoi? Dans le fond, ils sont tous si gentils…
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