
A madame Faës, très chère amie.
III
Se Madame Fäes não tivesse com os lucros de guerra arredondado os rendimentos que lhe permitirão fechar a sua casa concluída a paz, e se não fosse uma ardente patriota, poderia ter feito fortuna comunicando ao inimigo os mais minuciosos informes acerca das nossas tropas, porque ela sabe tudo. Foi ela que antes de mais ninguém me deu a notícia da entrada em linha da segunda divisão. Contara-lhe um coronel. Desde os altos postos até à arraia-miúda, todos vão ali dizer o que lhes consta, as ordens recebidas, os movimentos que se vão efectuar, as brigadas que sobem, os batalhões que descem… Mas de tudo isso só lhe interessam os amigos que durante um tempo não virão ali, os amigos que ela vai tornar a ver. A sua vida passa-se a despedir-se com ternura dos que partem, a saudar com alegria os que chegam.
Sobre a cidade e, de quando em quando, em fúrias espasmódicas, o boche despeja bombas de aeroplano e granadas de longo alcance. Há em várias ruas casas em ruínas, e poucos são os vidros inteiros que restam. Duma vez, o pânico foi total e o Aire ficou quase deserto. Mas, enquanto todos os civis se safam, Madame, as suas filhas, o seu pessoal ficam. À tardinha, mal começa a escurecer, a tribo põe os taipais e, sempre com um cortejo de alferes, elas aí vão até uma aldeia das proximidades na incerteza de, no outro dia de manhã, ao chegarem, encontrarem o prédio inteiro e a loja intacta. Mas não! Até hoje a Librairie tem sido poupada e há de sê-lo até ao fim da guerra. Então, quando já não houver um português para comprar postais, tomar chá, tocar piano e galantear as vendeuses, Madame Fäes sentirá um tal vácuo no coração e uma tal penúria de fregueses na loja, que irá para qualquer rincão da França casar as suas filhas e recordar-se desses portugueses malcriados muita vez, inconvenientes quase sempre, mas si gentils, dans le fond…
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