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DESVALORIZAÇÃO OU GUERRA DE MOEDAS, por SATYAJIT DAS – I

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

There are No Currency Wars! We Are Just Devaluing /Não há guerras de moedas, não! Nós só estamos a desvalorizar

 

Satyajit Das  · 16 de Maio de  2013

Com o devido pedido de desculpas a The Weather Girls com a sua canção It’s raining men meteorologistas, oh homem! agora está a chover ienes! O Japão abriu uma nova frente na “guerra das moedas”, um termo cunhado pelo Ministro das Finanças do Brasil, Guido Mantega, em 2010. Os EUA, a Inglaterra e a Suíça já se encontram intimidados, com o facto da Europa poder estar disposta a pegar nas armas brevemente. As nações que constituem cerca de 70% da produção mundial estão agora “em guerra”, utilizando políticas que acarretam a desvalorização e a degradação das moedas.

Batalhas de moedas, guerras económicas (…).

Contudo, os conflitos de moedas são meramente escaramuças, perante a guerra económica mais ampla entre as nações. As nações mais desenvolvidas adotaram agora um conjunto similar de políticas, para lidar com os problemas do baixo crescimento económico, com o desemprego e posições de elevados níveis de dívida pública e privada.

Numa evolução para o isolacionismo económico, todas as nações desejam maximizar a sua quota no que respeita ao crescimento económico limitado e deslocar e atirar a carga do ajustamento financeiro para os outros. A manipulação do valor das moedas, bem como as restrições comerciais evidentes ou secretas, os contratos públicos (com preferência pelos fornecedores nacionais), as políticas de assistência e os financiamentos preferenciais  fazem parte deste processo.

A frequência com que os bancos centrais estão a implementar  políticas monetárias inovadoras é cada vez maior, tais como as taxas de juro zero (“ZIRP ” – zero interest rates), a flexibilização quantitativa (“QE”) e a monetarização de dívida para tentar gerar  a recuperação económica.

As taxas de juro artificialmente baixas reduzem o custo do serviço da dívida, permitindo que níveis mais elevados de empréstimos contraídos possam ser mantidos no curto prazo. As baixas taxas e as medidas quantitativas de acomodação monetária, quantitative easing (QE), contribuem para uma desvalorização  da moeda facilitando em simultâneo uma transferência de riqueza dos aforradores estrangeiros, quando  o valor dos títulos de um país é  denominado na moeda local e não em termos de moeda estrangeira. [Quando  o valor dos  títulos de um país está expresso em moeda nacional e o valor da moeda nacional baixa, então o mesmo valor destes títulos quando transposto para moeda estrangeira baixa obrigatoriamente  com a depreciação da moeda nacional]..

A descida do valor de uma moeda  estimula as exportações, uma vez que os preços dos bens exportados caiem quando são colocados no exterior. Por sua vez esta queda dos preços provoca um aumento das exportações o que leva ao crescimento e melhora o volume de emprego desencadeando a médio prazo analogamente a redução dos défices comercial e orçamental.

Todavia, estas políticas têm custos significativos, como  o aumento dos preços dos bens importados, o custo do serviço da dívida expressaa em moeda nacional  cresce significativamente, gera-se inflação e aumentam os níveis de dívida pública. Casualmente, quando os programas de QE são interrompidos, as taxas de juros podem aumentar recompondo os problemas. Contudo, em casos extremos, as políticas podem destruir a aceitabilidade de uma moeda.

No entanto, as políticas provocam e intensificam os custos de ajustamento económico sobre  outras nações, muitas vezes países bem menores, especialmente os ditos países emergentes, através da apreciação das suas  próprias moedas, desestabilizando os afluxos de capital e as pressões inflacionistas, por exemplo, através do aumento dos preços das matérias-primas, as  commodities,  cujos preços são determinados nas cotações internacionais. Uma vez que se verifica que os mercados emergentes têm um sustentado crescimento económico global morno, corre-se o risco de truncar qualquer recuperação nas nações desenvolvidas, dado que as economias emergentes não estimulam a economia mundial.

Um combate desigual (…).

Ações para enfraquecer a divisa nacional podem acarretar retaliações económicas. Os países afetados podem intervir nos mercados cambiais, podem tentar  fixar o valor da  sua taxa de câmbio (como a Suíça o tem feito contra o Euro), reduzir as taxas de juros, aplicar programas de acomodação monetária, o QE,  pôr em prática controles de capital ou mudar os seus  objectivos para fixar o seu crescimento  nominal ou o desemprego (como os EUA o tem feito).

Mas as guerras de moedas não são conflitos desencadeados entre iguais, entre países com o mesmo poder económico, não são guerras face às quais todos estão  ao mesmo nível. Perguntaram a Estaline sobre uma potencial aliança com o Vaticano, e Estaline terá respondido: “De quantas divisões dispõe o Papa”? Durante as guerras das moedas, as principais economias têm exércitos bem maiores e bem superiores tanto em capacidade ofensiva como defensiva.

Os países pequenos e os seus contribuintes simplesmente não estão munidos das mesmas defesas, não têm a capacidade de suportar tais custos ou de se poderem defender a eles próprios na guerra das moedas. Na pior das hipóteses, as grandes economias, como os EUA e a Europa, tem a dimensão económica e a escala necessária para se situarem depois quase que ao nível de economias em autarcia, sobrevivendo e reequipando a sua economia por detrás das barreiras comerciais tanto explícitas como implícitas. Esta opção não é possível para as nações para quem é fundamental ter acesso aos  mercados externos, para que seja possível escoarem os seus produtos e, aos capitais estrangeiros.

As acções para tentar estabelecer o valor da moeda nacional e a taxa de câmbio,  têm custos diretos significativos. Os custos indirectos incluem o risco de inflação, bolhas de activos domésticos e outras distorções.

Em 2012, o Banco Nacional da Suíça (“SNB”) foi forçado a constituir reservas cambiais num volume recorde para manter o Euro no valor de 1,20 Franco suíço (CHF), representando assim um enorme esforço para proteger a Suíça de uma recessão económica, impulsionada em parte por uma apreciação da sua moeda. As suas  reservas cambiais em termos de CHF são de  427 mil milhões ou seja  mais de 75% do PIB anual da Suíça. O SNB gastou um montante de CHF Fr188 mil milhões para comprar  moeda estrangeira em 2012, mais de dez vezes os gastos efectuados em  2011 em CHF que foi de cerca de CHF 17,8 mil milhões. A intervenção do SNB resultou em perdas que totalizaram CHF 27 mil milhões em  2010.

Na Austrália, onde um aumento da moeda nacional está a criar  problemas económicos, os decisores políticos tacitamente reconheceram a sua impotência.

Divulgações recentes vindas do Banco de Reserva da Austrália (“RBA”) mostram que nos  seus activos detidos em moeda estrangeira, uma apreciação da moeda nacional de  10%, ou seja  do dólar australiano,  resulta  numa  perda não realizada  de cerca de US $3,43 mil milhões. Da mesma forma, um aumento nas taxas de juros de 1% resultaria num prejuízo da sua apreciação de cerca de US $0,66 mil milhões em títulos. A intervenção para fazer descer o valor do dólar australiano exigiria ao RBA, vender  o dólar australiano e usar os rendimentos daí resultantes para comprar e manter valores mobiliários adicionais expressos em  moeda estrangeira, aumentando portanto esses riscos.

Isso restringe as opções políticas disponíveis para as economias dos pequenos países, limitando na prática a sua capacidade de influenciar as taxas de câmbio e a actividade económica. Respondendo a uma pergunta sobre a abordagem da Nova Zelândia, o ministro das Finanças Bill English declarou o óbvio com uma desarmante honestidade: “para influenciar a taxa de câmbio precisamos de um bom par de  100 mil milhões de dólares americanos para que nos levem a sério. Sem isso, estaríamos fora da zona de guerra com uma zarabatana na mão”.

(continua)
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